sexta-feira, 2 de outubro de 2026


 

Por que ler ficção pode te tornar um terapeuta melhor

Por Aline Simões


“Eu vi minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto.

Da ponta de cada galho, como um figo roxo e gordo, um futuro maravilhoso me chamava com uma piscadinha. Um figo era um marido numa casa feliz com filhos, e outro figo era uma poeta famosa e outro figo era uma professora universitária brilhante (...), e acima e além desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar direito.

Eu me vi sentada entre as raízes dessa figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia decidir qual dos figos escolher. Eu queria todos eles, todos, mas escolher um era perder os outros e, enquanto eu ficava ali parada, incapaz de tomar uma decisão, os figos iam murchando e ficando escuros, e, um a um, começavam a se espatifar aos meus pés.”

 

Esse trecho poderia ser uma metáfora da ACT - falando bem sobre fusão cognitiva e o distanciamento de uma ação comprometida com valores - mas é parte do romance “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath. Em meio a uma grande oferta de cursos, aprofundamentos e dicas para aprimorar a técnica, tenho encontrado refúgio e inspiração clínica na literatura de ficção.

Já vi leitoras falando que não se lê Sylvia Plath, mas se sobrevive a ela. Falam isso porque sua escrita é conhecida por tocar em temas sensíveis e impactar aquele que lê. Esse impacto só acontece porque há coerência (poderíamos falar de uma relação de coordenação entre as molduras relacionais) entre o que foi escrito e os eventos privados do leitor. Nesse sentido, a literatura tem um grande poder de colocar em palavras aqueles fenômenos que acontecem conosco e nem sempre sabemos traduzir, funcionando quase como um repertório verbal emprestado, que amplia a capacidade do leitor (e do cliente) de descrever sua própria experiência. 

Romances integram a minha prática clínica, seja através de pacientes leitoras que trouxeram exemplos literários como ilustrações de suas questões, seja por mim mesma, levando situações da ficção como metáforas para tratar de um tema delicado com um pouco de distância e perspectiva.

A partir dessa prática, noto algumas funções possíveis para o uso da literatura na clínica:

  1. Evocar material clinicamente relevante. Conversar sobre quais passagens de um livro incomodaram, emocionaram ou foram evitadas pode ajudar a identificar funções e padrões. A reação à leitura funciona como uma pequena amostra do repertório do cliente fora da sessão.

  2. Criar a oportunidade para falar de um assunto difícil  (aproximação gradual / exposição com menor esquiva). Falar de um personagem permite abordar um tema doloroso com menor custo de resposta do que falar diretamente de si (sem presumir que personagem e cliente sejam equivalentes).

  3. Examinar regras/comportamento governado por regras. O terapeuta pode fazer perguntas como: "Que regra parece orientar esse personagem?", "Qual seria o custo de segui-la?" e "Você acha que algo semelhante aparece em sua vida?", buscando explicitar regras que, de outro modo, poderiam ficar apenas implícitas.

  4. Evocar tomada de perspectiva. Recontar uma passagem do ponto de vista de personagens diferentes pode flexibilizar relações verbais rígidas, enfraquecendo a fusão do cliente com uma única leitura possível dos eventos.

  5. Ensaiar respostas. O cliente pode escrever outro desfecho, uma carta a um personagem ou imaginar uma cena em que alguém responda de maneira diferente. É um ensaio de repertório novo fora do contexto natural, a um custo de resposta menor do que testar diretamente na vida.

  6. Clarificar valores. A pergunta não fica apenas em "com quem você se identifica?", mas passa a incluir "que modo de viver essa história a torna importante para você?", ampliando o foco para englobar direções e ações valorosas.

  7. Observar comportamentos em sessão. Discordar, emocionar-se, pedir ajuda ou evitar um tema às vezes podem ser mais relevantes clinicamente que a interpretação literária em si. É comportamento acontecendo ali, ao vivo, e o terapeuta tem a oportunidade de oferecer a consequência em sessão.

 

Devemos considerar, claro, que usar intervenções baseadas na literatura não é uma indicação universal e, como qualquer outra intervenção, vai precisar ser analisada diante do contexto. A literatura, nesse sentido, não substitui a teoria nem a técnica, ela amplia o repertório verbal para descrever, discriminar e intervir sobre o comportamento, tanto o do cliente quanto o do próprio terapeuta. E uma observação: em vez da literatura, você poderia usar, com a mesma função, o cinema, a televisão, a filosofia ou o que quer que faça sentido para os envolvidos.

O ponto final que eu gostaria de transmitir aqui, e que tem feito parte das minhas reflexões, é que talvez você (e eu) não precise sempre de um aprimoramento da teoria ou de uma nova técnica, mas também de mais curiosidade, mais conversas profundas, mais conhecimento geral, mais experiência de vida. Mais daquilo que nos aproxima da beleza de trabalhar com a experiência subjetiva de outras pessoas.



Referência:

PLATH, Sylvia. A redoma de vidro. Tradução de Ana Guadalupe. 1. ed., 3. reimp. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2025. 


Agradecimentos

Fica o agradecimento a Diogo Esmeraldo Cavalcanti pelo cuidado com a leitura e revisão desse texto. 


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