quarta-feira, 10 de junho de 2026

[Resenha] O Voo de Odisseu na Teoria das Molduras Relacionais (RFT): Desafios e Horizontes de um Modelo Hiperdimensional

                                

                                                                                                      

Escrito por Divaldo de Canavarros de Abreu Junior


 Onde quer que eu ‘ROE-M’ (Roam), lá estou.” (Harte & Barnes-Holmes, 2021).

Quando o texto seminal de Hayes, Barnes-Holmes e Roche foi publicado em 2001, a promessa era audaciosa: oferecer uma abordagem analítico-comportamental ampla sobre a linguagem e a cognição humana. Duas décadas depois, a Teoria das Molduras Relacionais (RFT) encontra-se em um fluxo de sofisticação conceitual e empírica. (Para mais detalhes introdutórios da RFT ver Perez et al., 2017).

No artigo "Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond", publicado no Journal of the Experimental Analysis of Behavior, Dermot Barnes-Holmes e Colin Harte convidam a comunidade a embarcar nos desdobramentos de um programa de pesquisa financiado pela Flanders Science Foundation (o programa Odysseus, sediado na Universidade de Ghent entre 2015 e 2020). Longe de ser apenas uma narrativa histórica, o artigo estabelece uma expansão teórica que estende a RFT para além do volume clássico de 2001.

A consolidação metodológica e conceitual desse fenômeno formalizada rigorosamente por Sidman e Tailby (1982) por meio dos testes de reflexividade, simetria e transitividade, e posteriormente expandida por Sidman (2000) em uma teoria analítico-comportamental unificada, fundamentou as bases para os desdobramentos seguintes. A constatação de que seres humanos derivam relações sem reforço direto, algo que Sidman e outros pesquisadores apontaram como geralmente ausente ou fraco em espécies não humanas, solidificou o elo indissociável entre equivalência e linguagem verbal (Hayes, Barnes-Holmes & Roche, 2001).

A RFT avançou ao propor que o responder relacional arbitrariamente aplicável (RRAA) funciona como um operante generalizado. O texto sintetiza as propriedades fundamentais do quadro relacional clássico:

 Implicação Mútua: Refere-se a uma relação bidirecional entre dois estímulos. Por exemplo, se X é menor que Y, mutuamente se estabelece que Y é maior que X.

Implicação Combinatória: Refere-se a relações inovadoras que emergem entre estímulos quando três ou mais elementos são relacionados. Se você aprende que: X é menor que Y E que Y é menor que Z. Você descobre que: X é menor que Z (e que Z é maior que X).

Transformação de Funções de Estímulo: A alteração das propriedades psicológicas de um estímulo a partir de sua inserção em uma rede relacional, ocorrendo na ausência de reforço direto, instrução ou indução explícita. Se você aprende que X<Y<Z e leva um choque direto apenas com Y, a função de Z se transforma automaticamente e você passa a ter mais medo dele (porque ele é "maior" que o perigo), enquanto X passa a gerar menos medo (por ser "menor"), sem que você nunca tenha recebido um choque com nenhum dos dois.

No modelo tradicional da RFT, esses processos operam sob o controle de pistas contextuais relacionais (Crel), que determinam o tipo de relação, e pistas contextuais funcionais (Cfunc), que controlam as funções comportamentais e a transformação de função produzida. A grande mudança de rota apresentada para além do volume de 2001 reside na ênfase dada à cooperação humana altamente desenvolvida como o principal motor evolutivo do RRAA.

Em vez de focar no início da linguagem puramente no falar ou ouvir, os autores sugerem que a história crítica começa com o orientar mutuamente entrelaçado. Essa é uma classe de comportamento que ocorre especificamente no contexto de um ato cooperativo entre um cuidador e um bebê humano para mais detalhes sobre o tema ver Tomasello et al. (2005).

O Modelo HDML e a Unidade ROE-M: A Hiperdimensionalidade do Comportamento

A maior contribuição contemporânea revisada no artigo é a formalização do modelo HDML (Hyper-Dimensional, Multilevel Framework). O modelo supera análises puramente focadas no quadro relacional isolado ao cruzar níveis de desenvolvimento com dimensões dinâmicas.

O framework especifica cinco níveis de desenvolvimento relacional:

1.     Mutuamente implicado;

2.     Combinatoriamente implicado;

3.     Em rede relacional;

4.     Relacionando relações;

5.     Relacionando redes relacionais.

Esses níveis cruzam-se dinamicamente com quatro dimensões:

Coerência: Grau em que o padrão de RRAA é consistente com padrões estabelecidos anteriormente pela comunidade verbal.

Complexidade: A densidade, o detalhamento ou o número e tipos de relações envolvidas na resposta.

Derivação: A extensão em que um padrão relacional específico foi emitido anteriormente, diminuindo à medida que ganha histórico próprio.

Flexibilidade: O grau em que o padrão relacional pode ser modificado por variáveis contextuais atuais.

A intersecção entre esses cinco níveis e quatro dimensões gera 20 unidades analítico-abstratas de análise, que dão suporte à nova unidade genérica do comportamento humano: o ROE-M.

O que é o ROE-M?  Sigla para Relacionar, Orientar, Evocar e Motivar. O argumento central é que qualquer ato psicológico humano envolve uma interação dinâmica, não linear e simultânea entre esses quatro elementos. Dito de outra forma, o ROE-M é a unidade de análise contemporânea do comportamento verbal e da cognição humana dentro da Teoria das Molduras Relacionais (RFT).

 Matriz Dinâmica do Modelo HDML  tabela ilustrativa

Níveis de Complexidade

Coerência

Complexidade

Derivação

Flexibilidade

1. Relacionando Estímulos (Mútua/Combinatória)

O sentido faz lógica imediata para o indivíduo (ex: A=B).

Envolve poucas propriedades ou estímulos simples na rede.

A velocidade em derivar a relação sem treino direto (A > B induz B > A).

 

A facilidade em reverter a relação se o contexto mudar (ex: agora A é diferente de B).

2. Em Rede Relacional (Sentenças/Histórias)

A narrativa ou história contada mantém consistência interna.

O tamanho e a densidade da rede (várias molduras conectadas: coordenação, distinção, oposição).

Como novas histórias são inferidas a partir de pedaços de informações soltas.

A capacidade de mudar de perspectiva sobre uma história quando surgem novos dados.

3. Relacionando Relações (Analogias/Metáforas)

A analogia faz sentido contextual (ex: "A estrutura do átomo é como o sistema solar").

Exige correlacionar duas redes completas distintas ao mesmo tempo.

A rapidez em captar o significado oculto ou abstrato de uma nova metáfora.

Conseguir ver múltiplos significados ou subverter a função de uma analogia clássica.

4. Relacionando Redes (Sistemas de Crenças/Self)

Alinhamento macro (ex: como minha visão de mundo se encaixa com quem eu sou, Self Verbal).

O nível mais alto; envolve ideologias, regras de vida complexas e cosmovisões.

Como o indivíduo deduz seu valor ou o futuro a partir de sistemas conceituais inteiros.

Flexibilidade Psicológica: Capacidade de se descolar de redes rígidas (defusão) sob demanda adaptativa.

 

Evidências de Laboratório: O IRAP e o Modelo DAARRE

O artigo demonstra como essa evolução teórica foi impulsionada por investigações empíricas com o Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP). O IRAP é um procedimento computadorizado desenvolvido originalmente dentro da RFT para medir a força e a probabilidade de padrões naturais de RRAA por meio de latências de resposta sob pressão de tempo (Barnes-Holmes et al., 2006).

O modelo DAARRE (Differential Arbitrarily Applicable Relational Responding Effects)  foi inicialmente formulado por Dermot Barnes-Holmes e seu grupo de pesquisa para explicar as assimetrias encontradas em um estudo fundamental e aparentemente simples: o famoso teste computadorizado de "Cores e Formas" (Shapes-and-Colors IRAP). Para mais detalhes do estudo ver (Finn et al., 2018).

O modelo DAARRE demonstra que o desempenho em tarefas verbais rápidas é determinado pelo nível de sobreposição e coerência funcional entre as propriedades contextuais (Crel e Cfunc) dos estímulos e os Indicadores de Coerência Relacional (RCI) usados como opções de resposta (Barnes-Holmes & Harte, 2022). A coerência funcional, nesse sentido, refere-se à consistência entre a função de estímulo (o impacto psicológico ou significado da pista) e as demandas da resposta exigida pela tarefa.

A inclusão de operações motivacionais (OM) biológicas manipulações diretas de estados de privação e saciação ilustra com precisão a maleabilidade situacional que rege o funcionamento do modelo ROE-M (Relacionar, Orientar, e Evocar a Motivação contextual). O que diferencia essas variáveis de manipulações puramente instrucionais (como regras verbais sobre o valor de um reforçador) é a alteração imediata e incondicionada do valor de sobrevivência do estímulo e da probabilidade da resposta, sem a necessidade de treino verbal prévio. No cenário experimental, enquanto uma variável motivacional instrucional altera o comportamento via rede de relações derivadas (ex.: "imagine que você está com sede"), a variável biológica ou incondicionada altera o estado fisiológico do organismo de forma imediata, exercendo um controle contextual direto e de alta magnitude sobre as propriedades evocativas dos estímulos.

Um exemplo metodológico dessa distinção é o estudo de Gomes et al. (2020). Os pesquisadores estabeleceram, via treino de pareamento ao modelo, classes de equivalência entre estímulos abstratos (formas geométricas) e imagens de copos de água. Em seguida, os participantes foram submetidos ao IRAP sob três condições motivacionais distintas: saciação (livre consumo de água antes do teste), neutra e privação aguda (induzida quimicamente no momento do teste por gotas de molho de pimenta na língua).

No desenho do IRAP, essa manipulação afetou diretamente a dinâmica de respostas rápidas. O dispositivo apresentou os estímulos abstratos (estímulos-modelo) pareados a palavras-alvo de confirmação (ex.: "Quero", "Água") ou negação (ex.: "Não", "Evitar"). Os participantes deveriam responder sob duas regras de blocos: uma coerente com a busca por água (regra pró-consumo) e outra incoerente (regra de esquiva/neutralidade).

A ardência imediata da pimenta atuou como uma Operação de Estabelecimento (OE), alterando drasticamente o contexto motivacional da tarefa. Ao aumentar o valor apetitivo da água instantaneamente, a OE maximizou a propriedade funcional (Cfunc) dos estímulos abstratos que faziam parte da classe de equivalência da água. No nível do ROE-M, a privação aguda evocou uma forte resposta de orientação (O) para os estímulos da água e potencializou a função evocativa (E) das respostas direcionadas à confirmação do consumo.

Em termos de mensuração, o IRAP capturou esse fenômeno por meio dos escores D-IRAP (calculados a partir da latência de resposta em milissegundos) (Barnes-Holmes et al., 2018). Na condição de privação aguda, os participantes demonstraram uma facilitação cognitiva (respostas significativamente mais rápidas e com menor taxa de erro) estritamente nos blocos em que a regra exigia confirmar a relação entre os estímulos abstratos e a busca por água. Esse viés relacional acentuado, quando comparado às condições neutra e de saciação, evidenciou como uma operação motivacional de base biológica é capaz de modular a força e a velocidade de redes relacionais derivadas em tempo real.

Considerações Críticas: Avanços e Desafios para a Comunidade

 O esforço de Barnes-Holmes e Harte (2022) em expandir a RFT (Teoria dos Quadros Relacionais) aproxima a análise do comportamento da complexidade real encontrada no ambiente clínico e cotidiano. Ao integrar de forma indissociável a atenção (orientar), o afeto (evocar), a motivação (motivar) e a cognição (relacionar) sob uma mesma matriz operante (o modelo ROE-M), os autores oferecem ferramentas conceituais que transicionam do desenho experimental para a prática terapêutica. Na clínica, essa aproximação ocorre quando o terapeuta deixa de analisar o relato verbal (relacionar) de forma isolada e passa a rastrear, em tempo real, como esse relato evoca respostas emocionais na sessão, orienta a atenção do paciente para estímulos específicos e modifica sua motivação para agir. Essa transposição amplia significativamente a aplicação da teoria ao fornecer um mapa tridimensional para intervenções complexas, como a reestruturação do Self simbólico, o treino de tomadas de perspectiva (dêíticos) e a flexibilização do seguimento rígido de regras, permitindo que o clínico manipule essas quatro dimensões de forma integrada e contextualizada, em vez de tratá-las como processos psicológicos separados.

Contudo, como os próprios autores reconhecem de forma transparente, grande parte das novas formulações (como os comportamentos pré-natais no chamado "triângulo de emaranhamento") é altamente especulativa e baseada em uma teorização molar. Além disso, o framework gera termos conceituais novos cujo valor a longo prazo dependerá inteiramente de sua utilidade demonstrada na literatura pela comunidade científica. Serão necessários mais estudos analíticos em contextos de interações diversas para validar se as 20 células do HDML mantêm sua utilidade prática e indutiva.

Conclusão

O artigo "Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond" é uma leitura instigante. Longe de ser um dogma fechado, a RFT mostra-se viva e responsiva.

O texto funciona como um mapa atualizado que nos desafia a olhar para além do horizonte clássico e a compreender o ser humano verbal como um organismo que constantemente está "ROE-ning" através de um fluxo dinâmico, não linear e profundamente contextualizado de eventos comportamentais.

Agradeço a leitura e a revisão cuidadosa feita pelo Dermot Barnes-Holmes, Camila Abigail Ocariz Duré e do Eduardo Cunha Vilela. Espero que este texto tenha estabelecido uma relação de coordenação com o seu interesse pelo tema. Mas, se você ainda ficou com dúvidas, não se preocupe, é hora de continuar a 'ROE-M' por aí e derivar o resto. 


Artigo Analisado: Barnes-Holmes, D., & Harte, C. (2022). Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 117(2), 240-266.



Referências Bibliográficas

Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., Power, P., Hayden, E., Milne, R., & Stewart, I. (2006). Do you really know what you believe? Developing the Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP) as a direct measure of implicit beliefs. The Irish Psychologist, 32(7), 169–177.

Barnes-Holmes, D., Finn, M., McEnteggart, C., & Barnes-Holmes, Y. (2018). Derived Relational Responding and Motivation: A Review of the Relational Frame Theory Account of Human Motivation. The Psychological Record, 68, 483–494.

Barnes-Holmes, D., & Harte, C. (2022). Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 117(2), 240-266. https://doi.org/10.1002/jeab.733

Finn, M., Barnes-Holmes, D., & McEnteggart, C. (2018). Exploring the single-trial-type-dominance-effect on the IRAP: Developing a differential arbitrarily applicable relational responding effects (DAARRE) model. The Psychological Record, 68(1), 11–25. https://doi.org/10.1007/s40732-017-0262-z

Gomes, C., Perez, W., de Almeida, J., Ribeiro, A., de Rose, J., & Barnes-Holmes, D. (2020). Assessing a derived transformation of functions using the implicit relational assessment procedure under three motivative conditions. The Psychological Record, 69, 487-497. https://doi.org/10.1007/s40732-019-00353-6

Harte, C., & Barnes-Holmes, D. (2021, 29 de março). Wherever I “ROE-M” there I am: An RFT (technical) account of the verbal self and altered states of consciousness. Behavior Analysis Blogs. https://behavioranalysisblogs.abainternational.org/2021/03/29/wherever-i-roe-m-there-i-am-an-rft-technical-account-of-the-verbal-self-and-altered-states-of-consciousness/

Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (2001). Relational frame theory: A post-Skinnerian account of human language and cognition. Plenum.

Perez, W. F., Nico, Y. C., Kovac, R., Fidalgo, A. P., & Leonardi, J. L. (2017). Introdução à Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory): principais conceitos, achados experimentais e possibilidades

Sidman, M., & Tailby, W. (1982). Conditional discrimination as a basis for equivalence relations. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37(1), 5–22. https://doi.org/10.1901/jeab.1982.37-5

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Tomasello, M., Carpenter, M., Call, J., Behne, T., & Moll, H. (2005). Understanding and sharing intentions: The origins of cultural cognition. Behavioral and Brain Sciences, 28(5), 675–691. 10.1017/S0140525X05000129

 

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

[ARTIGO] Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento


Diogo Esmeraldo Cavalcanti


Este texto é um resumo do artigo “Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento”, publicado em 2025, cuja autoria é de Lívia Balog. A introdução do texto de Balog (2025) parte de Sigmund Freud e sua obra “O mal-estar na civilização”, na qual a religião é compreendida como uma ilusão. Em contraposição, surgida na troca de cartas entre Freud e um amigo (cujo nome não é citado no texto), surge a noção de um “sentimento oceânico”, descrito como uma experiência de infinitude e ausência de limites, cuja origem Freud buscou explicar teoricamente. Cabe esclarecer que religião e experiência religiosa são entendidos como fenômenos diferentes e no texto o segundo é descrito como fonte do primeiro.

Na Análise do Comportamento, B. F. Skinner iniciou a compreensão da religião como agência de controle (Padilha, Fazzano, & Gallo, 2022; Skinner, 1953/2003), mas estudos mais recentes sugerem que a experiência religiosa envolve também dimensões subjetivas. Nesse sentido, o “sentimento oceânico” passa a ser investigado como experiência privada ainda pouco explorada e que, possivelmente, é comum a todas as religiões (Balog, 2025).




[Resenha] O Voo de Odisseu na Teoria das Molduras Relacionais (RFT): Desafios e Horizontes de um Modelo Hiperdimensional

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