Como é de conhecimento comum, os smartphones facilitam que os usuários acessem uma variedade de reforçadores positivos com pouco custo de resposta (O’Donnell & Epstein, 2019). Com isso, é bastante comum passarmos mais tempo nas telas do que gostaríamos, o que geralmente produz uma sensação de perda de controle e, em alguns casos, sentimentos de culpa e arrependimento. Aquela sensação geral de: “entrei para ver uma mensagem e fiquei duas horas seguindo o algoritmo”.
Mas isso não é apenas uma sensação individual: o uso médio diário de mídias sociais tem aumentado, com estimativas globais de aproximadamente 111 para 141 minutos por dia entre 2015 e 2025 (Statista, 2025). Além disso, o uso excessivo de mídias sociais está associado a problemas de internalização (emoções negativas), menor desempenho acadêmico, pior qualidade do sono e diminuição da produtividade (Riehm et al., 2019).
Tendo em conta esse cenário atual, analistas do comportamento têm investigado e desenvolvido intervenções direcionadas à redução do uso de smartphones (Williams-Buttari et al., 2023).
Olgun et al. (2026) avaliaram os efeitos do manejo de contingências e da seleção de atividades alternativas ao uso de mídias sociais, bem como mensuraram o envolvimento dos participantes nessas atividades alternativas. Este estudo foi uma réplica e extensão da pesquisa de Stinson e Dallery (2023), que avaliou os efeitos de um pacote de intervenção que incluía o manejo de contingências, limites para o uso de aplicativos e seleção de atividades alternativas sobre o tempo de uso de mídias sociais (medido pelo auto relato).
O manejo de contingências, ou contingency management (CM), é uma intervenção fundamentada em princípios comportamentais, na qual reforçadores tangíveis (como cartões-presente, vales, prêmios ou outros itens de valor) são disponibilizados aos clientes de acordo com a comprovação objetiva da emissão de um ou mais comportamentos-alvo previamente definidos (Petry, 2011).
Embora ainda não exista concordância entre os pesquisadores sobre se o uso de mídias sociais, como o tempo gasto em aplicativos de redes sociais no smartphone, deve ser caracterizado como um vício, muitas nomenclaturas têm sido utilizadas para se referir ao uso diário substancial ou excessivo dessas mídias, incluindo vício em mídias sociais (Andreassen et al., 2012; Şahin, 2018).
Nesse contexto, foi possível demonstrar que o uso de smartphones, caracterizado como uma escolha impulsiva - isto é, a seleção de ganhos pequenos e imediatos em vez de ganhos maiores e atrasados, ou a escolha de penalidades grandes e atrasadas em vez de penalidades menores e imediatas (Ho et al., 1999) - pode ser modificado pelo reforço de uma escolha de autocontrole (Hayashi, 2024).. Da mesma forma, intervenções baseadas no gerenciamento de contingências têm produzido reduções na duração do uso de mídias sociais e nas pontuações do Teste de Dependência da Internet (Stinson & Dallery, 2023). Já a pesquisa de Olgun et al. (2026) teve como objetivo não só avaliar os efeitos do gerenciamento de contingências e da seleção de atividades alternativas ao uso de mídias sociais, como também mensurar o envolvimento dos participantes nessas atividades alternativas por meio do aplicativo de tempo de uso.
Todo o estudo foi conduzido de forma remota, o tempo foi monitorado usando o aplicativo tempo de uso do iOS, pois os quatro participantes inscritos usavam dispositivos iOS. Os participantes eram estudantes de graduação e pós-graduação.
Para a realização da pesquisa primeiramente foi solicitado para os participantes preencherem o Teste de Dependência da Internet, no qual as referências para “internet” foram trocadas por “mídias sociais”. O teste conta com 20 itens e é avaliada em uma escala Likert de 5 pontos (1 = nunca a 5 = sempre), resultando em uma pontuação geral entre 0 e 100, com o ponto de corte de 31 para identificar participantes que apresentavam pelo menos níveis leves de dependência, representando o limiar no qual o uso de mídias sociais pode começar a produzir prejuízo funcional (Young & De Abreu, 2011).
A principais variáveis dependentes do estudo foi o tempo de uso diário em minutos nas mídias sociais, como também, a duração total (em minutos) por dia dedicada a atividades alternativas com o smartphone. As atividades alternativas incluíam o uso de aplicativos que não sejam de mídias sociais como: aplicativos de música, podcast, meditação, educação (duolingo), exercício físico, jornais, jogos (puzzle). Cada participante podia escolher três atividades alternativas, com a condição de ser objetivamente mensuradas pelo smartphone do participante e de ser aplicativos que já constavam no smartphone.
Como pré-linha de base, os participantes precisaram mandar vídeos dos dados coletados do tempo de uso de 7 dias anteriores à intervenção. Já na linha de base, os participantes ganharam US$1 por dia pelo envio de seus vídeos, essa fase teve uma duração de 7 dias.
Antes de iniciar a intervenção, os participantes escolheram as metas diárias individuais de tempo de uso das mídias sociais, que foram estabelecidas junto com os pesquisadores antes do início da intervenção. Com o objetivo de auxiliar na decisão, os pesquisadores forneceram aos participantes sua média diária durante a fase de linha de base, junto com informações sobre os efeitos negativos do uso, com base na literatura relevante.
Durante a intervenção, os participantes precisavam mandar um vídeo que mostrasse todos os dados coletados pelo rastreador de tempo de uso de tela em seu smartphone no dia anterior. No primeiro dia da fase de intervenção de gerenciamento de contingências, os participantes ganharam US$7 se atingissem sua meta diária de uso de mídias sociais. Os ganhos poderiam aumentar US$1 por dia para cada dia consecutivo em que o participante atingisse sua meta, até um máximo de US$9 por dia. Porém, se um participante não atingisse sua meta ou não enviasse seus dados em um dia de intervenção, o esquema de aumento era reiniciado. Assim como na linha de base, eles recebiam US$1 por mandar um vídeo.
Além disso, os participantes recebiam diariamente mensagens sobre seus ganhos e saldo, com um feedback (“Parabéns, você atingiu sua meta diária!” ou “Infelizmente, você não atingiu sua meta diária.”). Caso não fosse possível atingir a meta diária, o pesquisador e o participante discutiam brevemente possíveis estratégias para promover o engajamento em atividades alternativas.
Já nos resultados, os pesquisadores relataram que todos os participantes diminuíram o tempo diário gasto em mídias sociais durante a fase de gerenciamento de contingências, mantendo-o igual ou abaixo da meta diária estabelecida para cada um. Além disso, para três dos quatro participantes, as pontuações no teste de dependência da internet foram menores após a intervenção. Mas, segundo os autores, não houve influência discernível sobre o engajamento em atividades alternativas durante a fase de intervenção. Os participantes apresentaram baixos níveis de engajamento diário nessas atividades, sem mudanças notáveis da linha de base para a intervenção. Uma das participantes relatou que preferiu passar mais tempo offline, compartilhando momentos com a família, trabalhando ou saindo.
Assim, os autores discutem que a ausência de mudanças no tempo de engajamento em atividades alternativas, tanto no estudo deles quanto no de Stinson e Dallery (2023), sugere que o uso de manejo de contingências para reduzir o tempo de uso de mídias sociais provavelmente não produz, por si só, mudanças concomitantes no engajamento nessas atividades. Portanto, o reforço programado para o envolvimento em atividades alternativas pode ser necessário para promover mudanças nesses comportamentos.
No entanto, os autores questionam a relevância dessa estratégia, uma vez que o envolvimento em atividades offline pode ser ainda mais benéfico para a saúde, levantando a dúvida sobre sua real necessidade. Uma limitação das atividades offline é que elas não podem ser facilmente mensuradas por meio do smartphone, o que dificulta seu monitoramento.
Outro ponto a ser destacado é que os autores não avaliaram a manutenção dos efeitos da intervenção, o que levanta a hipótese de que esses efeitos podem não se sustentar após a descontinuação dos incentivos financeiros. Isso indica a necessidade de mais pesquisas que investiguem a manutenção desses efeitos, uma vez que uma crítica frequente ao manejo de contingências é que os efeitos da intervenção podem não se manter após a retirada dos incentivos financeiros. Por outro lado, o afastamento das mídias sociais em função dos incentivos financeiros pode favorecer o contato com contingências naturais de reforçamento, ao reduzir o tempo de uso do celular e permitir que essas contingências passem a exercer maior controle sobre o comportamento.
Pesquisas nessa linha têm o potencial de contribuir para um dos problemas e desafios mais importantes dos últimos tempos.
Resenha do artigo: Olgun, D., Deshais, M. A., Kahng, S., & LaRue, R. H. (2026). Reducing social media use via contingency management: A replication and extension. Journal of Applied Behavior Analysis, 59(2), e70061. https://doi.org/10.1002/jaba.70061
Nota: Agradeço a revisão cuidadosa, bem como as contribuições sumamente valiosas de Diogo Cavalcanti e Eduardo Vilela
Referências
Andreassen, C. S., Torsheim, T., Brunborg, G. S., & Pallesen, S. (2012). Development of a Facebook addiction scale. Psychological Reports, 110(2), 501–517. https://doi.org/10.2466/02.09.18.PR0.110.2.501-517
Hayashi, Y. (2024). Problematic mobile phone use as impulsive choice: Development and empirical verification of a reinforcer-pathology model. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 121(2),189–200. https://doi.org/10.1002/jeab.900
Ho MY, Mobini S, Chiang TJ, Bradshaw CM, Szabadi E. Theory and method in the quantitative analysis of "impulsive choice" behaviour: implications for psychopharmacology. Psychopharmacology (Berl). 1999 Oct;146(4):362-72. https://doi.org/10.1007/pl00005482
O’Donnell, S., & Epstein, L. H. (2019). Smartphones are more reinforcing than food for students. Addictive Behaviors, 90, 124–133. https://doi.org/10.1016/j.addbeh.2018.10.018
Petry NM. Contingency management: what it is and why psychiatrists should want to use it. Psychiatrist. 2011 May;35(5):161-163.: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22558006/
Şahin, C. (2018). Social Media Addiction Scale–Student form: The reliabilit and validity study. TOJET: The Turkish Online Journal of Educational Technology, 17(1), 169–182.
Statista. (2025). Average daily time spent on social media worldwide from 2012 to 2025. Statista. https://www.statista.com/statistics/433871/daily-social-media-usage-worldwid
Riehm, K. E., Feder, K. A., Tormohlen, K. N., Crum, R. M., Young, A. S., Green, K. M., Pacek, L. R., La Flair, L. N., & Mojtabai, R. (2019). Associations between time spent using social media and internalizing and externalizing problems among US youth. JAMA Psychiatry, 76(12), 1266–1273. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2019.2325
Williams-Buttari, D., Deshais, M. A., Reeve, K. F., & Reeve, S. A. (2023). A preliminary evaluation of the effects of a contingency management + deposit contract intervention on problematic smartphone use with college students. Behavior Modification, 47(2), 476–503. https://doi.org/10.1177/01454455221113561
Young, K. S., & de Abreu, C. N. (Eds.). (2011). Internet addiction: A handbook and guide to evaluation and treatment. John Wiley & Sons. https://doi.org/10.1002/9781118013991
