quarta-feira, 15 de abril de 2026

Uma alternativa para reduzir o tempo de scroll e o uso de mídias sociais por meio do manejo de contingências: uma replicação e extensão

Como é de conhecimento comum, os smartphones facilitam que os usuários acessem uma variedade de reforçadores positivos com pouco custo de resposta (O’Donnell & Epstein, 2019). Com isso, é bastante comum passarmos mais tempo nas telas do que gostaríamos, o que geralmente produz uma sensação de perda de controle e, em alguns casos, sentimentos de culpa e arrependimento. Aquela sensação geral de: “entrei para ver uma mensagem e fiquei duas horas seguindo o algoritmo”.

Mas isso não é apenas uma sensação individual: o uso médio diário de mídias sociais tem aumentado, com estimativas globais de aproximadamente 111 para 141 minutos por dia entre 2015 e 2025 (Statista, 2025). Além disso, o uso excessivo de mídias sociais está associado a problemas de internalização (emoções negativas), menor desempenho acadêmico, pior qualidade do sono e diminuição da produtividade (Riehm et al., 2019).

Tendo em conta esse cenário atual, analistas do comportamento têm investigado e desenvolvido intervenções direcionadas à redução do uso de smartphones (Williams-Buttari et al., 2023). 

Olgun et al. (2026) avaliaram os efeitos do manejo de contingências e da seleção de atividades alternativas ao uso de mídias sociais, bem como mensuraram o envolvimento dos participantes nessas atividades alternativas. Este estudo foi uma réplica e extensão da pesquisa de Stinson e Dallery (2023), que avaliou os efeitos de um pacote de intervenção que incluía o manejo de contingências, limites para o uso de aplicativos e seleção de atividades alternativas sobre o tempo de uso de mídias sociais (medido pelo auto relato).

O manejo de contingências, ou contingency management (CM), é uma intervenção fundamentada em princípios comportamentais, na qual reforçadores tangíveis (como cartões-presente, vales, prêmios ou outros itens de valor) são disponibilizados aos clientes de acordo com a comprovação objetiva da emissão de um ou mais comportamentos-alvo previamente definidos (Petry, 2011).

Embora ainda não exista concordância entre os pesquisadores sobre se o uso de mídias sociais, como o tempo gasto em aplicativos de redes sociais no smartphone, deve ser caracterizado como um vício, muitas nomenclaturas têm sido utilizadas para se referir ao uso diário substancial ou excessivo dessas mídias, incluindo vício em mídias sociais (Andreassen et al., 2012; Şahin, 2018).

Nesse contexto, foi possível demonstrar que o uso de smartphones, caracterizado como uma escolha impulsiva - isto é, a seleção de ganhos pequenos e imediatos em vez de ganhos maiores e atrasados, ou a escolha de penalidades grandes e atrasadas em vez de penalidades menores e imediatas (Ho et al., 1999) - pode ser modificado pelo reforço de uma escolha de autocontrole (Hayashi, 2024).. Da mesma forma, intervenções baseadas no gerenciamento de contingências têm produzido reduções na duração do uso de mídias sociais e nas pontuações do Teste de Dependência da Internet (Stinson & Dallery, 2023). Já a pesquisa de Olgun et al. (2026) teve como objetivo não só avaliar os efeitos do gerenciamento de contingências e da seleção de atividades alternativas ao uso de mídias sociais, como também mensurar o envolvimento dos participantes nessas atividades alternativas por meio do aplicativo de tempo de uso.

Todo o estudo foi conduzido de forma remota, o tempo foi monitorado usando o aplicativo tempo de uso do iOS, pois os quatro participantes inscritos usavam dispositivos iOS. Os participantes eram estudantes de graduação e pós-graduação. 

Para a realização da pesquisa primeiramente foi solicitado para os participantes preencherem o Teste de Dependência da Internet, no qual as referências para “internet” foram trocadas por “mídias sociais”. O teste conta com 20 itens e é avaliada em uma escala Likert de 5 pontos (1 = nunca a 5 = sempre), resultando em uma pontuação geral entre 0 e 100, com o ponto de corte de 31 para identificar participantes que apresentavam pelo menos níveis leves de dependência, representando o limiar no qual o uso de mídias sociais pode começar a produzir prejuízo funcional (Young & De Abreu, 2011).

A principais variáveis dependentes do estudo foi o tempo de uso diário em minutos nas mídias sociais, como também, a duração total (em minutos) por dia dedicada a atividades alternativas com o smartphone. As atividades alternativas incluíam o uso de aplicativos que não sejam de mídias sociais como:  aplicativos de música, podcast, meditação, educação (duolingo), exercício físico, jornais, jogos (puzzle). Cada participante podia escolher três atividades alternativas, com a condição de ser objetivamente mensuradas pelo smartphone do participante e de ser aplicativos que já constavam no smartphone. 

Como pré-linha de base, os participantes precisaram mandar vídeos dos dados coletados do tempo de uso de 7 dias anteriores à intervenção. Já na linha de base, os participantes ganharam US$1 por dia pelo envio de seus vídeos, essa fase teve uma duração de 7 dias. 

Antes de iniciar a intervenção, os participantes escolheram as metas diárias individuais de tempo de uso das mídias sociais, que foram estabelecidas junto com os pesquisadores antes do início da intervenção.  Com o objetivo de auxiliar na decisão, os pesquisadores forneceram aos participantes sua média diária durante a fase de linha de base, junto com informações sobre os efeitos negativos do uso, com base na literatura relevante.

Durante a intervenção, os participantes precisavam mandar um vídeo que mostrasse todos os dados coletados pelo rastreador de tempo de uso de tela em seu smartphone no dia anterior. No primeiro dia da fase de intervenção de gerenciamento de contingências, os participantes ganharam US$7 se atingissem sua meta diária de uso de mídias sociais. Os ganhos poderiam aumentar US$1 por dia para cada dia consecutivo em que o participante atingisse sua meta, até um máximo de US$9 por dia. Porém, se um participante não atingisse sua meta ou não enviasse seus dados em um dia de intervenção, o esquema de aumento era reiniciado. Assim como na linha de base, eles recebiam US$1 por mandar um vídeo.

Além disso, os participantes recebiam diariamente mensagens sobre seus ganhos e saldo, com um feedback (“Parabéns, você atingiu sua meta diária!” ou “Infelizmente, você não atingiu sua meta diária.”). Caso não fosse possível atingir a meta diária, o pesquisador e o participante discutiam brevemente possíveis estratégias para promover o engajamento em atividades alternativas. 

Já nos resultados, os pesquisadores relataram que todos os participantes diminuíram o tempo diário gasto em mídias sociais durante a fase de gerenciamento de contingências, mantendo-o igual ou abaixo da meta diária estabelecida para cada um. Além disso, para três dos quatro participantes, as pontuações no teste de dependência da internet foram menores após a intervenção. Mas, segundo os autores, não houve influência discernível sobre o engajamento em atividades alternativas durante a fase de intervenção. Os participantes apresentaram baixos níveis de engajamento diário nessas atividades, sem mudanças notáveis da linha de base para a intervenção. Uma das participantes relatou que preferiu passar mais tempo offline, compartilhando momentos com a família, trabalhando ou saindo.

Assim, os autores discutem que a ausência de mudanças no tempo de engajamento em atividades alternativas, tanto no estudo deles quanto no de Stinson e Dallery (2023), sugere que o uso de manejo de contingências para reduzir o tempo de uso de mídias sociais provavelmente não produz, por si só, mudanças concomitantes no engajamento nessas atividades. Portanto, o reforço programado para o envolvimento em atividades alternativas pode ser necessário para promover mudanças nesses comportamentos.

No entanto, os autores questionam a relevância dessa estratégia, uma vez que o envolvimento em atividades offline pode ser ainda mais benéfico para a saúde, levantando a dúvida sobre sua real necessidade. Uma limitação das atividades offline é que elas não podem ser facilmente mensuradas por meio do smartphone, o que dificulta seu monitoramento.

Outro ponto a ser destacado é que os autores não avaliaram a manutenção dos efeitos da intervenção, o que levanta a hipótese de que esses efeitos podem não se sustentar após a descontinuação dos incentivos financeiros. Isso indica a necessidade de mais pesquisas que investiguem a manutenção desses efeitos, uma vez que uma crítica frequente ao manejo de contingências é que os efeitos da intervenção podem não se manter após a retirada dos incentivos financeiros. Por outro lado, o afastamento das mídias sociais em função dos incentivos financeiros pode favorecer o contato com contingências naturais de reforçamento, ao reduzir o tempo de uso do celular e permitir que essas contingências passem a exercer maior controle sobre o comportamento.

Pesquisas nessa linha têm o potencial de contribuir para um dos problemas e desafios mais importantes dos últimos tempos. 

Resenha do artigo: Olgun, D., Deshais, M. A., Kahng, S., & LaRue, R. H. (2026). Reducing social media use via contingency management: A replication and extension. Journal of Applied Behavior Analysis, 59(2), e70061. https://doi.org/10.1002/jaba.70061

Nota: Agradeço a revisão cuidadosa, bem como as contribuições sumamente valiosas de Diogo Cavalcanti e Eduardo Vilela

Referências

  • Andreassen, C. S., Torsheim, T., Brunborg, G. S., & Pallesen, S. (2012). Development of a Facebook addiction scale. Psychological Reports, 110(2), 501–517. https://doi.org/10.2466/02.09.18.PR0.110.2.501-517 

  • Hayashi, Y. (2024). Problematic mobile phone use as impulsive choice: Development and empirical verification of a reinforcer-pathology model. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 121(2),189–200. https://doi.org/10.1002/jeab.900 

  • Ho MY, Mobini S, Chiang TJ, Bradshaw CM, Szabadi E. Theory and method in the quantitative analysis of "impulsive choice" behaviour: implications for psychopharmacology. Psychopharmacology (Berl). 1999 Oct;146(4):362-72. https://doi.org/10.1007/pl00005482 

  • O’Donnell, S., & Epstein, L. H. (2019). Smartphones are more reinforcing than food for students. Addictive Behaviors, 90, 124–133. https://doi.org/10.1016/j.addbeh.2018.10.018 

  • Petry NM. Contingency management: what it is and why psychiatrists should want to use it. Psychiatrist. 2011 May;35(5):161-163.: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22558006/ 

  • Şahin, C. (2018). Social Media Addiction Scale–Student form: The reliabilit and validity study. TOJET: The Turkish Online Journal of Educational Technology, 17(1), 169–182.

  • Statista. (2025). Average daily time spent on social media worldwide from 2012 to 2025. Statista. https://www.statista.com/statistics/433871/daily-social-media-usage-worldwid 

  • Riehm, K. E., Feder, K. A., Tormohlen, K. N., Crum, R. M., Young, A. S., Green, K. M., Pacek, L. R., La Flair, L. N., & Mojtabai, R. (2019). Associations between time spent using social media and internalizing and externalizing problems among US youth. JAMA Psychiatry, 76(12), 1266–1273. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2019.2325 

  • Williams-Buttari, D., Deshais, M. A., Reeve, K. F., & Reeve, S. A. (2023). A preliminary evaluation of the effects of a contingency management + deposit contract intervention on problematic smartphone use with college students. Behavior Modification, 47(2), 476–503. https://doi.org/10.1177/01454455221113561

  • Young, K. S., & de Abreu, C. N. (Eds.). (2011). Internet addiction: A handbook and guide to evaluation and treatment. John Wiley & Sons. https://doi.org/10.1002/9781118013991 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

[Conceitos Básicos] O tempo como estímulo em Análise Experimental do Comportamento

Escrito por Eduardo Cunha Vilela

O tempo é uma propriedade fundamental do ambiente em que ocorrem os comportamentos dos organismos (Catania, 1991), e animais e humanos demonstram sensibilidade à sua passagem (e.g., Ferster & Skinner, 1957; Richelle & Lejeune, 1980). Por essa razão, o tempo tem sido um foco de investigação no estudo do comportamento operante desde os primeiros trabalhos de Skinner (1938).

Nos primórdios de seus estudos do comportamento operante, Skinner (1938) entendia que o tempo não possuía as dimensões próprias de um estímulo, sendo constituído por uma única propriedade unidimensional, a duração. Com o avanço das investigações, especialmente a partir da análise de padrões de resposta sob contingências temporais, o tempo passa a ser compreendido a partir de suas funções discriminativas. Skinner (1958) descreve que aspectos do comportamento ao longo do intervalo até o reforço passam a integrar o ambiente estimulador e a exercer controle sobre respostas subsequentes. Catania (1991) formaliza essa análise ao indicar que, em esquemas baseados em tempo (e.g., Intervalo fixo ou variável, DRL ou DRH) a especificação do estímulo discriminativo inclui a duração em função de sua correlação com a obtenção de reforço.

Evidências experimentais sustentam essa formulação ao demonstrar que o comportamento é sistematicamente modulado por parâmetros temporais inseridos em esquemas de reforçamento. Em diferentes arranjos, incluindo esquemas de intervalo fixo e variável, organismos apresentam sensibilidade consistente com regularidades temporais, expressa em padrões organizados de resposta ao longo do tempo (Appel & Hiss, 1962; Ferster & Skinner, 1957; Richelle & Lejeune, 1980; Staddon & Simmelhag, 1971). Esses resultados fortalecem a perspectiva de que intervalos temporais podem adquirir função discriminativa no contexto de contingências operantes, em função de sua correlação com a disponibilidade de reforço (Catania, 1977; Rescorla & Skucy, 1969).

Embora os resultados experimentais suportem as funções discriminativas do tempo, Catania (1970, 1991) destaca que durações apresentam idiossincrasias quando comparadas a outras categorias de estímulos. Estímulos temporais diferem de outras categorias de estímulo em aspectos relevantes: durações não contam com receptores sensoriais dedicados, ocorrem de forma irreversível e não podem ser manipuladas de modo descontínuo, de modo que um organismo não pode experienciar 12 s sem antes passar por 11 s (Catania, 1991). Nessas condições, estímulos temporais só podem ser apreendidos retrospectivamente, após o transcurso do intervalo. A discriminação temporal, portanto, não depende de um canal sensorial direto, mas da relação funcional entre a duração do estímulo e as contingências de reforçamento.

Os padrões de responder em esquemas baseados em parâmetros temporais é, tradicionalmente, a principal forma de se estudar propriedades discriminativas do tempo para os organismos (e.g., Catania & Reynolds, 1968; Ferster & Skinner, 1957; Guilhardi & Church, 2005; Machado & Cevik, 1998). Todavia, Catania (1970) sugere que a característica definitiva de uma discriminação temporal é a probabilidade de emissão de uma resposta ser maior após a duração de um dado estímulo do que após a duração de outro estímulo em virtude da correlação entre o reforçador e a duração. Pois, dessa forma, a medida da discriminação temporal não precisará ser, ela própria, uma medida temporal, como obtida nos estudos de esquemas de reforçamento.

Esse tipo de procedimento tem sido amplamente utilizado para investigar discriminação temporal em diferentes contextos, seja a partir da duração de estímulos visuais (e.g., Huziwara et al., 2013; Reynolds & Catania, 1962), auditivos (e.g., Catania, 1970; Cippola, Domeniconi & Machado, 2014) ou do intervalo entre eventos (e.g., Miki & Santi, 2005; Rammsayer & Lima, 1991). Um exemplo é o estudo de Huziwara et al. (2013), que utilizaram um procedimento de matching-to-sample com pombos, no qual diferentes durações de estímulos visuais serviam como base para a escolha entre cores. Após o treino, os animais passaram a responder em função das relações estabelecidas, e o desempenho variou sistematicamente conforme a duração dos estímulos modelo. Esse padrão indica que a duração passou a exercer controle sobre o comportamento, o que está de acordo com outros achados sobre discriminação temporal (Huziwara et al., 2013; Church, 2002; Machado & Keen, 1999).

Resultados positivos de discriminação temporal também foram obtidos com participantes humanos, tanto em tarefas menos complexas de discriminação simples de diferentes durações (e.g., Abel, 1972a, 1972b; Rammsayer & Lima, 1991) quanto em procedimentos de discriminação condicional (e.g., Cippola, Domeniconi & Machado, 2014). No estudo de Rammsayer e Lima (1991), por exemplo, participantes foram expostos a tarefas nas quais deveriam identificar qual de dois estímulos havia durado mais, em condições com intervalos preenchidos, nos quais um estímulo permanece presente durante todo o intervalo, e intervalos vazios, marcados apenas por sinais de início e fim. Os resultados mostraram maior precisão na discriminação de intervalos preenchidos, com diferenças detectáveis menores, enquanto intervalos vazios exigiram diferenças mais amplas para serem discriminados. Ainda assim, os participantes foram capazes de responder diferencialmente em ambas as condições, indicando que a discriminação temporal pode ocorrer mesmo na ausência de um estímulo contínuo ao longo do intervalo, em linha com achados anteriores sobre discriminação de durações entre eventos (Abel, 1972a, 1972b).

Um interessante resultado na investigação de durações como estímulos em discriminações temporais foi obtido por Cippola et al. (2014), que investigaram o uso de durações como estímulos modelo no ensino de discriminações condicionais, avaliando se respostas por exclusão poderiam emergir a partir de variações unidimensionais no tempo. Foram utilizadas tonalidades sonoras de diferentes durações associadas a estímulos visuais definidos, enquanto estímulos indefinidos eram introduzidos em testes em extinção. Os resultados mostraram que a escolha por estímulos indefinidos variou sistematicamente em função da distância entre as durações apresentadas no teste e aquelas previamente treinadas, formando gradientes de generalização. Em geral, menores proporções de escolha ocorreram quando o modelo correspondia à duração associada ao estímulo definido durante o treino, enquanto aumentos graduais foram observados à medida que as durações se afastavam desses valores. Esses efeitos indicam que a duração dos estímulos exerceu controle sobre o comportamento, mesmo em condições que exigiam responder relacional, ainda que com alguma variabilidade entre participantes, possivelmente relacionada à história de treino envolvendo comparações intermediárias.

Os resultados anteriores suportam as propriedades discriminativas das durações apesar de todas as suas especificidades. Um desdobramento esperado, e suportado por Sidman (2000), que entende que a equivalência de estímulos ocorre a partir das contingências de reforçamento, é a de que durações, ao exercerem funções de estímulos discriminativos e podem se tornar partes componentes de classes de equivalência.

Esta hipótese foi investigada no Experimento 1 de Vilela (2025), que avaliou se durações poderiam funcionar como elementos de classes de equivalência em humanos. Participantes foram expostos a um procedimento de matching-to-sample com estrutura one-to-many, no qual dois intervalos temporais serviam como estímulos modelo e figuras visuais abstratas como comparações. Após o treino de múltiplas relações condicionais, a formação de classes foi avaliada por meio de testes de relações emergentes em extinção e por uma tarefa de agrupamento.

Parte dos participantes apresentou desempenho consistente com a formação de classes de equivalência. Em seguida, foi conduzida uma tarefa de estimativa de tempo, na qual os participantes deveriam reproduzir, por meio de uma resposta contínua, as durações associadas a cada estímulo visual. Os resultados indicaram que as estimativas variaram sistematicamente em função da classe à qual os estímulos pertenciam, com diferenças consistentes entre estímulos associados a durações mais curtas e mais longas. Esse padrão sugere que o controle estabelecido pelas durações foi transferido para os demais membros da classe e para novas topografias de resposta, indicando que estímulos temporais podem atuar como elementos de classes de equivalência e transferir suas funções com outros estímulos.

Os resultados apresentados até aqui trazem uma discussão acerca das funções discriminativas das durações tanto como propriedades do ambiente quanto do responder dos organismos e sua relação com o comportamento simbólico. Muito embora o próprio tempo seja alvo de discussões desde os primórdios da Filosofia, e apesar de suas particularidades, os resultados experimentais suportam de forma sólida as funções discriminativas das dimensões temporais dos estímulos.

Nota:

Agradeço pela análise atenta e minuciosa e também as considerações enriquecedoras de Guilherme Paes e Paula Helena Ruiz.

 

Referências:

Abel, S. M. (1972a). Duration discrimination of noise and tone bursts. The Journal of the Acoustical Society of America, 51(4), 1219–1223.

Abel, S. M. (1972b). Discrimination of temporal intervals. The Journal of the Acoustical Society of America, 52(2), 519–524.

Appel, J. B., & Hiss, R. H. (1962). The discrimination of contingent from noncontingent reinforcement. Journal of Comparative and Physiological Psychology, 55(1), 37–39.

Catania, A. C. (1970). Reinforcement schedules and psychophysical judgments: A study of some temporal properties of behavior. In W. N. Schoenfeld (Ed.), The theory of reinforcement schedules (pp. 1–42). Appleton-Century-Crofts.

Catania, A. C. (1977). Performance under intermittent reinforcement. In W. K. Honig & J. E. R. Staddon (Eds.), Handbook of operant behavior (pp. 364–383). Prentice Hall.

Catania, A. C. (1991). The epistemology of time. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 55(1), 3–15.

Catania, A. C., & Reynolds, G. S. (1968). A quantitative analysis of responding maintained by interval schedules of reinforcement. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 11(3), 327–383.

Church, R. M. (2002). A concise introduction to scalar timing theory. In W. H. Meck (Ed.), Functional and neural mechanisms of interval timing (pp. 3–22). CRC Press.

Cippola, N. P., Domeniconi, C., & Machado, A. (2014). Temporal control and symbolic behavior: Responding by exclusion based on time. The Psychological Record, 64, 87–96.

Ferster, C. B., & Skinner, B. F. (1957). Schedules of reinforcement. Appleton-Century-Crofts.

Guilhardi, P., & Church, R. M. (2005). The pattern of responding after extensive training on a fixed-interval schedule. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 84(3), 269–289.

Huziwara, E. M., Machado, A., Tomanari, G. Y., & Arantes, J. (2013). Temporal stimulus control in matching-to-sample: A cross-modal generalization study with pigeons. The Psychological Record, 63, 633–644.

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Miki, K., & Santi, A. (2005). The role of temporal and visual information in pigeons’ performance in a matching-to-sample task. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 84(3), 407–423.

Rammsayer, T., & Lima, S. D. (1991). Duration discrimination of filled and empty auditory intervals: Cognitive and perceptual factors. Perception & Psychophysics, 50(6), 565–574.

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Richelle, M., & Lejeune, H. (1980). Time in animal behaviour. Pergamon Press.

Sidman, M. (2000). Equivalence relations and the reinforcement contingency. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 74(1), 127–146.

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Skinner, B. F. (1958). Reinforcement today. American Psychologist, 13(3), 94–99.

Staddon, J. E. R., & Simmelhag, V. L. (1971). The “superstition” experiment: A reexamination of its implications for the principles of adaptive behavior. Psychological Review, 78(1), 3–43.

Vilela, E. C. (2025). O tempo como componente de classes de estímulos equivalentes [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O comportamento operante pode ser definido como a tríplice contingência?

 

O comportamento operante pode ser definido como a tríplice contingência?

Escrito por Eduardo Cunha Vilela

Algo que sempre me chamou a atenção na Análise do Comportamento é a maneira como se entende a própria definição de “comportamento”. É muito comum vermos, do ponto de vista teórico-conceitual, uma certa redução do conceito de comportamento ao paradigma operante, cuja distinção em relação ao comportamento respondente foi introduzida por Skinner (1938). Além disso, a própria definição de “comportamento” pode ser um tanto conflituosa por si só. Skinner (1953/1965, p. 65) afirmou que “a unidade básica do comportamento operante é a tríplice contingência: a ocasião em que a resposta ocorre, a própria resposta e as consequências reforçadoras. Esses termos não são independentes; é a relação entre eles que é crucial” [1](tradução nossa). Essa dependência relacional entre os estímulos discriminativos (SD), a resposta (R) e as consequências (C) tem levado muitos analistas do comportamento a tomar o próprio “comportamento” como a tríplice contingência (SD–R→C) (e.g., Catania, 1999; Matos, 1999; Moore, 2008; Skinner, 1953). Contudo, se a Análise do Comportamento entende o controle do comportamento em função do ambiente, então, na tríplice contingência, SD e C (ambos componentes ambientais) configuram-se como variáveis independentes. Todavia, se definimos o “comportamento” como a própria tríplice contingência, ele passa a incluir simultaneamente as variáveis independentes e as dependentes, resultando em uma circularidade conceitual. Em termos matemáticos, seria como definir f(x) = f(x) + x.

Essa discussão pode ser melhor compreendida à luz de A evolução do conceito de operante (Todorov, 2002). Nesse artigo, o autor reconstrói como Skinner desenvolveu o conceito de operante ao longo de sua obra. Em The Behavior of Organisms (1938), o operante surge como categoria contrastiva em relação ao respondente: uma resposta emitida, não eliciada por estímulo antecedente específico. Já em Science and Human Behavior (1953), Skinner sistematiza o conceito em termos da tríplice contingência, definindo o operante como uma relação funcional entre ocasião, resposta e consequência. Finalmente, em About Behaviorism (1974), é reforçada a ideia de que o operante não é apenas uma resposta isolada, mas uma classe de respostas definida por suas consequências, deslocando o foco da topografia para a função. Todorov interpreta esse percurso como uma evolução conceitual: de uma categoria contrastiva, passando a uma unidade de análise, até se tornar um instrumento conceitual capaz de organizar o estudo da aprendizagem e do comportamento humano. No entanto, ele destaca que o operante permanece um conceito específico dentro da análise do comportamento, e não sinônimo de comportamento em si. Confundir comportamento e operante, portanto, é extrapolar o alcance de uma ferramenta conceitual e reduzir a diversidade de processos que o termo “comportamento” deve abranger. Essa leitura histórica prepara o terreno para a crítica que o próprio autor desenvolveria em 2012, ao problematizar a definição de comportamento como a tríplice contingência.

É nesse sentido que Todorov discute o conceito de “comportamento” em  “Sobre uma definição de comportamento”, artigo publicado na revista Perspectivas em Análise do Comportamento em 2012, que servirá de base para a reflexão a seguir. Todorov inicia sua análise lembrando que perguntas aparentemente simples, como “o que é comportamento?”, podem exigir respostas complexas. Se a definição deve abranger todos os tipos de comportamento identificados pela ciência, reduzi-lo à fórmula “interação entre organismo e ambiente” mostra-se insuficiente e até tautológico. O próprio exercício de substituição proposto por Todorov evidencia isso: ao trocar a palavra “comportamento” por “interação organismo–ambiente” em enunciados correntes, obtêm-se frases redundantes ou sem sentido. Além disso, nem toda interação entre organismo e ambiente é objeto da Psicologia; alterações fisiológicas, como sudorese ou frequência cardíaca em função de variáveis ambientais, pertencem em grande parte ao escopo da biologia. À psicologia cabe o estudo do comportamento como variável dependente, isto é, o fenômeno a ser explicado em função de relações funcionais com o ambiente. Exemplos como salivar diante do alimento ou correr diante de um perigo ilustram que, embora ambos possam ser descritos como “interações”, tratam-se de processos diferentes (respondentes e operantes) que não podem ser reduzidos a uma definição genérica.

A complexidade das interações possíveis entre organismo e ambiente não pode ser resolvida simplesmente redefinindo comportamento como “a interação entre organismo e ambiente”. Todorov (2012) mostra que essa simplificação se apoia numa tradição que remonta a Skinner (1935) e a Keller e Schoenfeld (1950), para quem estímulo e resposta eram definidos de modo interdependente. Embora isso seja claro no comportamento respondente, que é definido como a correlação entre estímulo e resposta, no comportamento operante a situação é mais complexa.  Nelee, distinguem-se dois aspectos do ambiente: (a) o efeito produzido pela resposta e (b) a consequência que depende desse efeito. Embora todo comportamento envolva interação com o ambiente, não é essa interação em si (como efeitos físicos diretos do comportamento, por exemplo, a poeira que é levantada ao correr; ou o fechar do circuito ao pressionar da barra) que interessa à psicologia, mas a (a) relação dos efeitos das respostas sobre o ambiente com (b) as consequências produzidas. Para Todorov, portanto, comportamento não é coisa, mas processo, com início, meio e fim, sendo compreendido como a variável dependente para a Análise do Comportamento, enquanto as variações no ambiente que afetam a ocorrência das respostas são as variáveis independentes.

É fundamental, porém, na compreensão do comportamento operante, separar o efeito que permitem definir a resposta (ex.: fechamento do circuito provocado pelo pressionar da barra) das consequências produzidas.  A não separação pode levar à confusão de que comportamento é interação entre o organismo e ambiente apenas porque a pressão à barra fechou o circuito e não pelos efeitos efeitos observados na frequência de emissões de respostas de uma mesma classe em decorrência das alterações que estas produzem no ambiente. Embora a conceituação do comportamento operante se construa a partir da identificação de antecedentes, respostas e consequências que compõem a tríplice contingência, Todorov ressalta que esta é apenas um instrumento conceitual, uma unidade de análise que possibilita descrever o operante, mas não se confunde com o próprio comportamento.

Essa linha de argumentação é retomada em Todorov e Henriques (2013), no artigo O que não é e o que pode vir a ser comportamento. Ali, os autores reforçam que comportamento não deve ser confundido com a contingência operante nem reduzido à noção genérica de interação organismo–ambiente e também a importância de se diferenciar entre os efeitos e consequências das respostas. Ademais, para evitar equívocos, destacam a distinção entre resposta e comportamento: resposta é uma instância pontual, enquanto comportamento é uma classe de respostas definida por efeitos recorrentes. Essa formulação aumenta o rigor conceitual da definição, fortalecendo o argumento discutido até aqui.

Em síntese, o percurso histórico-conceitual mostra que, embora a contingência operante tenha se consolidado como unidade central de análise na Análise do Comportamento, não se deve reduzi-la a sinônimo de comportamento. De Skinner a Todorov, passando pela reconstrução histórica de 2002 e pela crítica conceitual de 2012, até a ampliação feita em 2013, a mensagem é clara: comportamento é a variável dependente da psicologia, um processo que se manifesta em múltiplas formas e que precisa ser explicado em função de suas relações funcionais com o ambiente. A tríplice contingência é uma ferramenta analítica poderosa, mas confundi-la com o próprio fenômeno é incorrer em circularidade e perder de vista a complexidade dos processos comportamentais. Manter essa distinção viva é condição para que a Análise do Comportamento preserve sua coerência conceitual.

Nota:

Agradeço pela análise atenta e minuciosa e também as considerações enriquecedoras de Camila Abigail Ocariz Duré e Guilherme Paes.

Referências

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Todorov, J. C., & Henriques, M. B. (2013). O que não é e o que pode vir a ser comportamento. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(1), 75–82. https://doi.org/10.18542/rebac.v9i1.2133


[1] Original: “The basic unit of operant behavior is the three-term contingency: the occasion upon which a response occurs, the response itself, and the reinforcing consequences. These terms are not independent; it is the relation among them that is crucial.” (Skinner, 1953/1965, p. 65)



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