quarta-feira, 10 de junho de 2026

[Resenha] O Voo de Odisseu na Teoria das Molduras Relacionais (RFT): Desafios e Horizontes de um Modelo Hiperdimensional

                                

                                                                                                      

Escrito por Divaldo de Canavarros de Abreu Junior


 Onde quer que eu ‘ROE-M’ (Roam), lá estou.” (Harte & Barnes-Holmes, 2021).

Quando o texto seminal de Hayes, Barnes-Holmes e Roche foi publicado em 2001, a promessa era audaciosa: oferecer uma abordagem analítico-comportamental ampla sobre a linguagem e a cognição humana. Duas décadas depois, a Teoria das Molduras Relacionais (RFT) encontra-se em um fluxo de sofisticação conceitual e empírica. (Para mais detalhes introdutórios da RFT ver Perez et al., 2017).

No artigo "Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond", publicado no Journal of the Experimental Analysis of Behavior, Dermot Barnes-Holmes e Colin Harte convidam a comunidade a embarcar nos desdobramentos de um programa de pesquisa financiado pela Flanders Science Foundation (o programa Odysseus, sediado na Universidade de Ghent entre 2015 e 2020). Longe de ser apenas uma narrativa histórica, o artigo estabelece uma expansão teórica que estende a RFT para além do volume clássico de 2001.

A consolidação metodológica e conceitual desse fenômeno formalizada rigorosamente por Sidman e Tailby (1982) por meio dos testes de reflexividade, simetria e transitividade, e posteriormente expandida por Sidman (2000) em uma teoria analítico-comportamental unificada, fundamentou as bases para os desdobramentos seguintes. A constatação de que seres humanos derivam relações sem reforço direto, algo que Sidman e outros pesquisadores apontaram como geralmente ausente ou fraco em espécies não humanas, solidificou o elo indissociável entre equivalência e linguagem verbal (Hayes, Barnes-Holmes & Roche, 2001).

A RFT avançou ao propor que o responder relacional arbitrariamente aplicável (RRAA) funciona como um operante generalizado. O texto sintetiza as propriedades fundamentais do quadro relacional clássico:

 Implicação Mútua: Refere-se a uma relação bidirecional entre dois estímulos. Por exemplo, se X é menor que Y, mutuamente se estabelece que Y é maior que X.

Implicação Combinatória: Refere-se a relações inovadoras que emergem entre estímulos quando três ou mais elementos são relacionados. Se você aprende que: X é menor que Y E que Y é menor que Z. Você descobre que: X é menor que Z (e que Z é maior que X).

Transformação de Funções de Estímulo: A alteração das propriedades psicológicas de um estímulo a partir de sua inserção em uma rede relacional, ocorrendo na ausência de reforço direto, instrução ou indução explícita. Se você aprende que X<Y<Z e leva um choque direto apenas com Y, a função de Z se transforma automaticamente e você passa a ter mais medo dele (porque ele é "maior" que o perigo), enquanto X passa a gerar menos medo (por ser "menor"), sem que você nunca tenha recebido um choque com nenhum dos dois.

No modelo tradicional da RFT, esses processos operam sob o controle de pistas contextuais relacionais (Crel), que determinam o tipo de relação, e pistas contextuais funcionais (Cfunc), que controlam as funções comportamentais e a transformação de função produzida. A grande mudança de rota apresentada para além do volume de 2001 reside na ênfase dada à cooperação humana altamente desenvolvida como o principal motor evolutivo do RRAA.

Em vez de focar no início da linguagem puramente no falar ou ouvir, os autores sugerem que a história crítica começa com o orientar mutuamente entrelaçado. Essa é uma classe de comportamento que ocorre especificamente no contexto de um ato cooperativo entre um cuidador e um bebê humano para mais detalhes sobre o tema ver Tomasello et al. (2005).

O Modelo HDML e a Unidade ROE-M: A Hiperdimensionalidade do Comportamento

A maior contribuição contemporânea revisada no artigo é a formalização do modelo HDML (Hyper-Dimensional, Multilevel Framework). O modelo supera análises puramente focadas no quadro relacional isolado ao cruzar níveis de desenvolvimento com dimensões dinâmicas.

O framework especifica cinco níveis de desenvolvimento relacional:

1.     Mutuamente implicado;

2.     Combinatoriamente implicado;

3.     Em rede relacional;

4.     Relacionando relações;

5.     Relacionando redes relacionais.

Esses níveis cruzam-se dinamicamente com quatro dimensões:

Coerência: Grau em que o padrão de RRAA é consistente com padrões estabelecidos anteriormente pela comunidade verbal.

Complexidade: A densidade, o detalhamento ou o número e tipos de relações envolvidas na resposta.

Derivação: A extensão em que um padrão relacional específico foi emitido anteriormente, diminuindo à medida que ganha histórico próprio.

Flexibilidade: O grau em que o padrão relacional pode ser modificado por variáveis contextuais atuais.

A intersecção entre esses cinco níveis e quatro dimensões gera 20 unidades analítico-abstratas de análise, que dão suporte à nova unidade genérica do comportamento humano: o ROE-M.

O que é o ROE-M?  Sigla para Relacionar, Orientar, Evocar e Motivar. O argumento central é que qualquer ato psicológico humano envolve uma interação dinâmica, não linear e simultânea entre esses quatro elementos. Dito de outra forma, o ROE-M é a unidade de análise contemporânea do comportamento verbal e da cognição humana dentro da Teoria das Molduras Relacionais (RFT).

 Matriz Dinâmica do Modelo HDML  tabela ilustrativa

Níveis de Complexidade

Coerência

Complexidade

Derivação

Flexibilidade

1. Relacionando Estímulos (Mútua/Combinatória)

O sentido faz lógica imediata para o indivíduo (ex: A=B).

Envolve poucas propriedades ou estímulos simples na rede.

A velocidade em derivar a relação sem treino direto (A > B induz B > A).

 

A facilidade em reverter a relação se o contexto mudar (ex: agora A é diferente de B).

2. Em Rede Relacional (Sentenças/Histórias)

A narrativa ou história contada mantém consistência interna.

O tamanho e a densidade da rede (várias molduras conectadas: coordenação, distinção, oposição).

Como novas histórias são inferidas a partir de pedaços de informações soltas.

A capacidade de mudar de perspectiva sobre uma história quando surgem novos dados.

3. Relacionando Relações (Analogias/Metáforas)

A analogia faz sentido contextual (ex: "A estrutura do átomo é como o sistema solar").

Exige correlacionar duas redes completas distintas ao mesmo tempo.

A rapidez em captar o significado oculto ou abstrato de uma nova metáfora.

Conseguir ver múltiplos significados ou subverter a função de uma analogia clássica.

4. Relacionando Redes (Sistemas de Crenças/Self)

Alinhamento macro (ex: como minha visão de mundo se encaixa com quem eu sou, Self Verbal).

O nível mais alto; envolve ideologias, regras de vida complexas e cosmovisões.

Como o indivíduo deduz seu valor ou o futuro a partir de sistemas conceituais inteiros.

Flexibilidade Psicológica: Capacidade de se descolar de redes rígidas (defusão) sob demanda adaptativa.

 

Evidências de Laboratório: O IRAP e o Modelo DAARRE

O artigo demonstra como essa evolução teórica foi impulsionada por investigações empíricas com o Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP). O IRAP é um procedimento computadorizado desenvolvido originalmente dentro da RFT para medir a força e a probabilidade de padrões naturais de RRAA por meio de latências de resposta sob pressão de tempo (Barnes-Holmes et al., 2006).

O modelo DAARRE (Differential Arbitrarily Applicable Relational Responding Effects)  foi inicialmente formulado por Dermot Barnes-Holmes e seu grupo de pesquisa para explicar as assimetrias encontradas em um estudo fundamental e aparentemente simples: o famoso teste computadorizado de "Cores e Formas" (Shapes-and-Colors IRAP). Para mais detalhes do estudo ver (Finn et al., 2018).

O modelo DAARRE demonstra que o desempenho em tarefas verbais rápidas é determinado pelo nível de sobreposição e coerência funcional entre as propriedades contextuais (Crel e Cfunc) dos estímulos e os Indicadores de Coerência Relacional (RCI) usados como opções de resposta (Barnes-Holmes & Harte, 2022). A coerência funcional, nesse sentido, refere-se à consistência entre a função de estímulo (o impacto psicológico ou significado da pista) e as demandas da resposta exigida pela tarefa.

A inclusão de operações motivacionais (OM) biológicas manipulações diretas de estados de privação e saciação ilustra com precisão a maleabilidade situacional que rege o funcionamento do modelo ROE-M (Relacionar, Orientar, e Evocar a Motivação contextual). O que diferencia essas variáveis de manipulações puramente instrucionais (como regras verbais sobre o valor de um reforçador) é a alteração imediata e incondicionada do valor de sobrevivência do estímulo e da probabilidade da resposta, sem a necessidade de treino verbal prévio. No cenário experimental, enquanto uma variável motivacional instrucional altera o comportamento via rede de relações derivadas (ex.: "imagine que você está com sede"), a variável biológica ou incondicionada altera o estado fisiológico do organismo de forma imediata, exercendo um controle contextual direto e de alta magnitude sobre as propriedades evocativas dos estímulos.

Um exemplo metodológico dessa distinção é o estudo de Gomes et al. (2020). Os pesquisadores estabeleceram, via treino de pareamento ao modelo, classes de equivalência entre estímulos abstratos (formas geométricas) e imagens de copos de água. Em seguida, os participantes foram submetidos ao IRAP sob três condições motivacionais distintas: saciação (livre consumo de água antes do teste), neutra e privação aguda (induzida quimicamente no momento do teste por gotas de molho de pimenta na língua).

No desenho do IRAP, essa manipulação afetou diretamente a dinâmica de respostas rápidas. O dispositivo apresentou os estímulos abstratos (estímulos-modelo) pareados a palavras-alvo de confirmação (ex.: "Quero", "Água") ou negação (ex.: "Não", "Evitar"). Os participantes deveriam responder sob duas regras de blocos: uma coerente com a busca por água (regra pró-consumo) e outra incoerente (regra de esquiva/neutralidade).

A ardência imediata da pimenta atuou como uma Operação de Estabelecimento (OE), alterando drasticamente o contexto motivacional da tarefa. Ao aumentar o valor apetitivo da água instantaneamente, a OE maximizou a propriedade funcional (Cfunc) dos estímulos abstratos que faziam parte da classe de equivalência da água. No nível do ROE-M, a privação aguda evocou uma forte resposta de orientação (O) para os estímulos da água e potencializou a função evocativa (E) das respostas direcionadas à confirmação do consumo.

Em termos de mensuração, o IRAP capturou esse fenômeno por meio dos escores D-IRAP (calculados a partir da latência de resposta em milissegundos) (Barnes-Holmes et al., 2018). Na condição de privação aguda, os participantes demonstraram uma facilitação cognitiva (respostas significativamente mais rápidas e com menor taxa de erro) estritamente nos blocos em que a regra exigia confirmar a relação entre os estímulos abstratos e a busca por água. Esse viés relacional acentuado, quando comparado às condições neutra e de saciação, evidenciou como uma operação motivacional de base biológica é capaz de modular a força e a velocidade de redes relacionais derivadas em tempo real.

Considerações Críticas: Avanços e Desafios para a Comunidade

 O esforço de Barnes-Holmes e Harte (2022) em expandir a RFT (Teoria dos Quadros Relacionais) aproxima a análise do comportamento da complexidade real encontrada no ambiente clínico e cotidiano. Ao integrar de forma indissociável a atenção (orientar), o afeto (evocar), a motivação (motivar) e a cognição (relacionar) sob uma mesma matriz operante (o modelo ROE-M), os autores oferecem ferramentas conceituais que transicionam do desenho experimental para a prática terapêutica. Na clínica, essa aproximação ocorre quando o terapeuta deixa de analisar o relato verbal (relacionar) de forma isolada e passa a rastrear, em tempo real, como esse relato evoca respostas emocionais na sessão, orienta a atenção do paciente para estímulos específicos e modifica sua motivação para agir. Essa transposição amplia significativamente a aplicação da teoria ao fornecer um mapa tridimensional para intervenções complexas, como a reestruturação do Self simbólico, o treino de tomadas de perspectiva (dêíticos) e a flexibilização do seguimento rígido de regras, permitindo que o clínico manipule essas quatro dimensões de forma integrada e contextualizada, em vez de tratá-las como processos psicológicos separados.

Contudo, como os próprios autores reconhecem de forma transparente, grande parte das novas formulações (como os comportamentos pré-natais no chamado "triângulo de emaranhamento") é altamente especulativa e baseada em uma teorização molar. Além disso, o framework gera termos conceituais novos cujo valor a longo prazo dependerá inteiramente de sua utilidade demonstrada na literatura pela comunidade científica. Serão necessários mais estudos analíticos em contextos de interações diversas para validar se as 20 células do HDML mantêm sua utilidade prática e indutiva.

Conclusão

O artigo "Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond" é uma leitura instigante. Longe de ser um dogma fechado, a RFT mostra-se viva e responsiva.

O texto funciona como um mapa atualizado que nos desafia a olhar para além do horizonte clássico e a compreender o ser humano verbal como um organismo que constantemente está "ROE-ning" através de um fluxo dinâmico, não linear e profundamente contextualizado de eventos comportamentais.

Agradeço a leitura e a revisão cuidadosa feita pelo Dermot Barnes-Holmes, Camila Abigail Ocariz Duré e do Eduardo Cunha Vilela. Espero que este texto tenha estabelecido uma relação de coordenação com o seu interesse pelo tema. Mas, se você ainda ficou com dúvidas, não se preocupe, é hora de continuar a 'ROE-M' por aí e derivar o resto. 


Artigo Analisado: Barnes-Holmes, D., & Harte, C. (2022). Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 117(2), 240-266.



Referências Bibliográficas

Barnes-Holmes, D., Barnes-Holmes, Y., Power, P., Hayden, E., Milne, R., & Stewart, I. (2006). Do you really know what you believe? Developing the Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP) as a direct measure of implicit beliefs. The Irish Psychologist, 32(7), 169–177.

Barnes-Holmes, D., Finn, M., McEnteggart, C., & Barnes-Holmes, Y. (2018). Derived Relational Responding and Motivation: A Review of the Relational Frame Theory Account of Human Motivation. The Psychological Record, 68, 483–494.

Barnes-Holmes, D., & Harte, C. (2022). Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 117(2), 240-266. https://doi.org/10.1002/jeab.733

Finn, M., Barnes-Holmes, D., & McEnteggart, C. (2018). Exploring the single-trial-type-dominance-effect on the IRAP: Developing a differential arbitrarily applicable relational responding effects (DAARRE) model. The Psychological Record, 68(1), 11–25. https://doi.org/10.1007/s40732-017-0262-z

Gomes, C., Perez, W., de Almeida, J., Ribeiro, A., de Rose, J., & Barnes-Holmes, D. (2020). Assessing a derived transformation of functions using the implicit relational assessment procedure under three motivative conditions. The Psychological Record, 69, 487-497. https://doi.org/10.1007/s40732-019-00353-6

Harte, C., & Barnes-Holmes, D. (2021, 29 de março). Wherever I “ROE-M” there I am: An RFT (technical) account of the verbal self and altered states of consciousness. Behavior Analysis Blogs. https://behavioranalysisblogs.abainternational.org/2021/03/29/wherever-i-roe-m-there-i-am-an-rft-technical-account-of-the-verbal-self-and-altered-states-of-consciousness/

Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (2001). Relational frame theory: A post-Skinnerian account of human language and cognition. Plenum.

Perez, W. F., Nico, Y. C., Kovac, R., Fidalgo, A. P., & Leonardi, J. L. (2017). Introdução à Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory): principais conceitos, achados experimentais e possibilidades

Sidman, M., & Tailby, W. (1982). Conditional discrimination as a basis for equivalence relations. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37(1), 5–22. https://doi.org/10.1901/jeab.1982.37-5

de aplicação. Perspectivas em Análise do Comportamento, 8(1), 105–181.

Tomasello, M., Carpenter, M., Call, J., Behne, T., & Moll, H. (2005). Understanding and sharing intentions: The origins of cultural cognition. Behavioral and Brain Sciences, 28(5), 675–691. 10.1017/S0140525X05000129

 

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

[ARTIGO] Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento


Diogo Esmeraldo Cavalcanti


Este texto é um resumo do artigo “Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento”, publicado em 2025, cuja autoria é de Lívia Balog. A introdução do texto de Balog (2025) parte de Sigmund Freud e sua obra “O mal-estar na civilização”, na qual a religião é compreendida como uma ilusão. Em contraposição, surgida na troca de cartas entre Freud e um amigo (cujo nome não é citado no texto), surge a noção de um “sentimento oceânico”, descrito como uma experiência de infinitude e ausência de limites, cuja origem Freud buscou explicar teoricamente. Cabe esclarecer que religião e experiência religiosa são entendidos como fenômenos diferentes e no texto o segundo é descrito como fonte do primeiro.

Na Análise do Comportamento, B. F. Skinner iniciou a compreensão da religião como agência de controle (Padilha, Fazzano, & Gallo, 2022; Skinner, 1953/2003), mas estudos mais recentes sugerem que a experiência religiosa envolve também dimensões subjetivas. Nesse sentido, o “sentimento oceânico” passa a ser investigado como experiência privada ainda pouco explorada e que, possivelmente, é comum a todas as religiões (Balog, 2025).




quinta-feira, 21 de maio de 2026

[Resenha] Muito Além da Glicemia: O Poder da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) para pessoas com Diabetes

 

Escrito por Paula Helena Gomes de Moraes Ruiz


A diabetes mellitus tipo 2 é uma disfunção metabólica grave, de evolução lenta e progressiva, que representa cerca de 90% de todos os casos de diabetes (International Diabetes Federation [IDF], 2025). Muito além dos desafios fisiológicos, conviver com a doença exige uma adaptação comportamental intensa. A pessoa com diabetes precisa adotar uma nova dieta, monitorar a glicemia, usar medicamentos e lidar com o medo constante de complicações severas, como neuropatias e doenças cardiovasculares, para assim ter o melhor controle da glicemia.

É exatamente nesse cenário de estresse crônico que muitas pessoas desenvolvem esquiva experiencial, uma tentativa de evitar pensamentos e sentimentos desconfortáveis sobre a doença. O resultado? O abandono das rotinas de autocuidado. Para enfrentar essa barreira, a Psicologia tem voltado seus olhos para a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).

A ACT ajuda pessoas com diabetes promovendo mudanças adaptativas de comportamento, mesmo diante de pensamentos, sentimentos ou sensações indesejadas associadas à doença e às restrições contínuas exigidas pelo tratamento (Gregg et al., 2007). A forma como a ACT atua na diabetes pode ser compreendida através dos seguintes mecanismos e resultados:

1. Redução da Esquiva Experiencial: É muito comum que pessoas com diabetes evitem pensamentos perturbadores sobre as complicações da doença ou até mesmo sobre a morte. O medo e a ansiedade (como o medo de ter uma crise de hipoglicemia) podem dominar a vida da pessoa, levando-a a tentar aliviar esse desconforto imediato ao invés de focar em cuidados de longo prazo (Kılıç et al., 2023). A ACT ajuda a reduzir o nível de influência dessa esquiva experiencial, permitindo que a pessoa não fuja de suas emoções, mas aprenda a conviver com elas.

2. Aumento da Aceitação: A terapia foca no desenvolvimento da flexibilidade psicológica, que é a capacidade de estar aberto e focado no momento presente, agindo de acordo com seus próprios valores e objetivos de vida (Luoma et al., 2022). A aceitação (que faz parte da flexibilidade psicológica), na diabetes significa lidar com a realidade da condição de forma aberta e sem julgamentos, abandonando a luta constante contra a frustração e as limitações físicas. Ao aceitar o desconforto (como a dor da agulha de insulina ou a frustração de restrições alimentares), o paciente consegue adotar uma abordagem mais flexível para lidar com os desafios diários.

3. Foco na Ação Comprometida baseada em Valores: A ACT ajuda os pacientes a explorarem os seus valores pessoais relacionados à saúde. Através da ação comprometida, a terapia orienta o paciente a tomar atitudes consistentes com o que realmente lhe importa, mesmo que isso signifique entrar em contato com experiências difíceis (Luoma et al., 2022). A pessoa deixa de focar no alívio imediato (como comer um doce para aliviar a ansiedade) e passa a focar nas suas metas de saúde em longo prazo.

Mas até que ponto a ACT é realmente eficaz para esses pacientes? E como ela se comporta quando aplicada à realidade sociodemográfica brasileira? Analisando as evidências científicas recentes, podemos extrair questões importantes para a prática clínica e para a pesquisa.

Quando olhamos para dois artigos que retratam essa temática (de Moraes Ruiz et al., 2025; Ruiz et al., 2025), encontramos resultados bastante animadores. Uma revisão sistemática recente analisou intervenções baseadas em ACT para adultos com diabetes tipo 2 e encontrou um impacto positivo e sustentado (de Moraes Ruiz et al., 2025).

Os dados da revisão sistemática (de Moraes Ruiz et al., 2025) mostraram que intervenções em grupo focadas na ACT, muitas vezes integradas a componentes educativos sobre a doença, foram mais eficazes do que os tratamentos convencionais. É importante esclarecer que o "tratamento convencional" ou "tratamento usual", no contexto dessas pesquisas científicas, refere-se ao cuidado médico padrão. Trata-se daquele acompanhamento que o paciente já recebe rotineiramente nos postos de saúde ou hospitais, como a medição de glicemia, a entrega de cartilhas e as consultas médicas básicas, mas sem a inclusão de uma intervenção psicoterapêutica especializada para lidar com o peso emocional da doença. Ao comparar as abordagens, a ACT demonstrou superioridade em diversos aspectos:

a) Aumento significativo do autocuidado: Os pacientes demonstraram maior adesão a comportamentos essenciais para o manejo da diabetes.

b) Melhora no controle glicêmico: Houve redução nos níveis de hemoglobina glicada (HbA1c).

c) Ganhos psicossociais: Melhorias expressivas na qualidade de vida e na adesão ao tratamento, resultados que se mantiveram em avaliações de seguimento (follow-up) meses após a intervenção.

d) Vantagem comparativa frente à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Os estudos não apenas compararam a ACT com a ausência de terapia, mas também a colocaram à prova contra outras abordagens psicológicas, como a TCC. Os resultados revelaram que a ACT se mostrou ainda mais eficaz, com um tamanho de efeito de forte a moderado, na promoção do autocuidado em comparação à TCC. Isso sugere que, para o paciente diabético, focar no desenvolvimento da flexibilidade psicológica constitui um mecanismo de promoção mais poderoso para a mudança de hábitos diários do que outras estratégias convencionais de modificação de pensamento.

Se a ACT é tão promissora na teoria e em estudos internacionais (Sakamoto et al., 2021; Wang et al., 2024), o que acontece quando a aplicamos em populações específicas, com realidades socioeconômicas desafiadoras?

Um estudo de campo conduzido no Brasil trouxe reflexões fundamentais sobre essa questão (Ruiz et al., 2025). Ao investigar a relação entre a aceitação da diabetes e o autocuidado em 68 adultos brasileiros com diabetes tipo 2 atendidos no SUS, os pesquisadores encontraram um cenário mais complexo.

Diferente do esperado, não foi encontrada uma correlação estatisticamente significativa direta entre a aceitação da diabetes e os níveis de autocuidado na amostra geral. Isso significa, necessariamente, que a intervenção foi ineficaz? Não. Significa que precisamos refinar nosso olhar clínico.

Os pesquisadores identificaram que variáveis sociodemográficas exerciam um peso substancial nos resultados. A amostra era predominantemente composta por idosos (média de idade acima de 61 anos) e pessoas com baixo nível de escolaridade. Quando os dados foram ajustados, revelou-se que a idade influenciou diretamente a relação entre a aceitação e o autocuidado.

Pessoas em idade avançada e com recursos educacionais limitados tendem a enfrentar barreiras cognitivas e funcionais mais rígidas para compreender e aplicar as demandas complexas do manejo da diabetes (Ruiz et al., 2025). Nesses casos, o conceito de "aceitação" pode esbarrar em dificuldades concretas de letramento em saúde.

A ACT representa uma quebra de paradigma no tratamento da diabetes tipo 2. Ela nos ensina que, para controlar a glicemia, o paciente não precisa travar uma guerra contra os próprios sentimentos e pensamentos.

Contudo, a ciência exige rigor e contexto. Para que o potencial clínico da ACT seja plenamente alcançado no Brasil, pesquisadores e terapeutas precisam continuar desenvolvendo ferramentas de avaliação adaptadas à nossa cultura e criar protocolos de intervenção sensíveis à idade e à realidade educacional dos nossos pacientes. Só assim garantiremos que o poder da flexibilidade psicológica chegue, de fato, a quem mais precisa.

 

Resenha dos artigos:

de Moraes Ruiz, P. H. G., de Abreu Junior, D. D. C., & de Fátima Kirchner, L. (2025). Terapia de Aceitação e Compromisso para pessoas com diabetes tipo 2: uma revisão sistemática. Perspectivas em Análise do Comportamento, xx-xx.

Ruiz, P. H. G. D. M., Kirchner, L. D. F., Canavarros de-Abreu-Júnior, D. D., Seidl, E. M. F., Borges, L. M., Mendes-Chiloff, C. L., ... & Melo, C. D. F. (2025). Relationship between acceptance and self-care in type 2 diabetes. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 21.

 

 Referências

 

Gregg, J. A., Callaghan, G. M., Hayes, S. C., & Glenn-Lawson, J. L. (2007). Improving diabetes self-management through acceptance, mindfulness, and values: a randomized controlled trial. Journal of consulting and clinical psychology, 75(2), 336.

International Diabetes Federation (2025). IDF Diabetes Atlas 11th Edition, 11ª ed. p. 131

Kılıç, A., Hudson, J., Scott, W., McCracken, L. M., Hackett, R. A., & Hughes, L. D. (2023). An online acceptance, commitment, and self-compassion based treatment to decrease psychological distress in people with type 2 diabetes: A feasibility randomised-controlled trial. Internet Interventions. https://doi.org/10.1016/J.INVENT.2023.100658

Luoma, J. B., Hayes, S. C. & Walser, R. D. (2022). Aprendendo ACT: manual de habilidades da terapia de aceitação e compromisso para terapeutas. 2 ed. Novo Hamburgo: Sinopsys Editora.

Sakamoto, R., Yoichi Ohtake, Ohtake, Y., Yuki Kataoka, Kataoka, Y., Yoshinobu Matsuda, Matsuda, Y., Takehisa Hata, Hata, T., Jun Otonari, Otonari, J., Akira Yamane, Akira Yamane, Hiromichi Matsuoka, Matsuoka, H., Kazuhiro Yoshiuchi, & Yoshiuchi, K. (2021). Efficacy of acceptance and commitment therapy for people with type 2 diabetes: Systematic review and meta-analysis. Journal of Diabetes Investigation. https://doi.org/10.1111/jdi.13658

Wang, M., Liu, Q., Zhu, Z., Guo, X., Hu, X., & Cheng, L. (2024). Effectiveness of acceptance and commitment therapy in people with type 2 diabetes mellitus: A systematic review and meta‐analysis. Worldviews on Evidence-Based Nursing, 21(4), 454–466. https://doi.org/10.1111/wvn.12719


segunda-feira, 27 de abril de 2026

[ARTIGO] O que é um organismo?




 

Desde pelo menos 1997 (Roche & Barnes, 1997) o estatuto do conceito de “organismo” no Behaviorismo Skinneriano é questionado. Segundo Roche e Barnes, um exemplo notável de que esse estatuto seria privilegiado é o próprio título de um dos textos fundadores da área, o The Behavior of Organisms (“O Comportamento dos Organismos, ênfase nossa - Skinner, 1938). Esse “dos organismos” seria um especificador e um restritor: os analistas do comportamento estariam interessados no comportamento dos organismos e apenas nele (em oposição ao interesse de outras ciências no comportamento de máquinas, partículas subatômicas, ondas e marés, movimentos planetários etc).

Para Roche e Barnes, no entanto, esse estatuto privilegiado precisaria ser relativizado por, grosso modo, três razões Em linhas gerais, temos (i) o conceito de “organismo”, tanto na Psicologia como na Biologia, não teria um significado específico, e sim vários, sendo um termo em disputa e não um termo técnico (essa tese é exemplificada por Roche e Barnes, referenciando Reber (1995), mas ela também é encontrada em trabalhos relativamente mais recentes como o de Palmer (2004) na Psicologia e o de Clarke (2011) na Biologia); (ii) esse conceito poderia, em alguma medida, ser irrelevante para o Behaviorismo Skinneriano, já que as regularidades encontradas pela Análise do Comportamento diriam respeito às relações entre respostas e mudanças ambientais; como salientam Roche e Barnes, a tríplice contingência, por exemplo, não fala sobre organismos. Retomando o próprio Skinner (1947/1999b): “afortunadamente para a psicologia, tem sido possível lidar com o comportamento sem uma compreensão clara sobre quem ou o que está se comportando, assim como parece ser possível lidar com personalidade sem definir ‘pessoa’”. Por fim, (iii) em decorrência da razão i, falar sobre comportamento fazendo referência a organismos pode produzir “reverberações” teóricas que entram em conflito com teses centrais do Behaviorismo Skinneriano. Essa razão será mais bem discutida a seguir, quando apresentarmos as discussões dos textos resenhados.

Seguindo a trilha aberta por Roche e Barnes (1997), Kelvin Fonseca e Diego Zilio realizaram, em um par de artigos (2018, 2021), um esforço (segundo os próprios autores, não exaustivo) de identificar e organizar os modos como o Behaviorismo Skinneriano utiliza o conceito de “organismo” para contribuir com seu refinamento. Seguindo os objetivos de cada artigo (Fonseca & Zilio, 2018, 2021), vamos apresentar, separadamente, os usos do conceito de “organismo” nos trabalhos de Skinner e na literatura behaviorista para além dele.

O conceito de “organismo” nos textos de Skinner

Conscientes das dificuldades para usar o conceito de “organismo” - especialmente da terceira razão identificada por Roche e Barnes (1997), ou seja, a de que o uso irrefletido do conceito pode implicar em desdobramentos teóricos conflitantes com teses centrais do Behaviorismo Skinneriano - Fonseca e Zilio (2018) procuraram identificar o jeito e os contextos em que o próprio Skinner falou sobre organismos. Eles investigaram, em 8 livros escritos por Skinner (dentre os quais o Cumulative Record (1999a) e o Recent Issues in the Analysis of Behavior (1989), duas coletâneas de artigos), os contextos em que a palavra organismo apareceu (verificando por quais palavras era precedida e seguida e em quais tipos de argumento) e organizaram esses aparecimentos em categorias temáticas. 

Uma das principais observações de Fonseca e Zilio (2018) é a de que, para cada uma dessas categorias, é possível encontrar, nos escritos do próprio Skinner, exemplos explícitos das tensões teóricas produzidas pelo uso do conceito de “organismo”. Como exemplo, vejamos o que os autores perceberam sobre a categoria “concepção morfológica do organismo”. Essa categoria foi nomeada recuperando a ideia de “concepção morfológica” elaborada por Palmer (2004) para descrever teorias psicológicas que têm a pele como critério principal para diferenciar organismo e ambiente: organismo é tudo aquilo que está dentro da pele e ambiente, o que está fora. Uma das tensões teóricas decorrentes de ter a pele como critério demarcatório é o risco de cair em concepções de organismo do tipo caixa-preta, segundo as quais a emissão de uma resposta seria fruto, principalmente, de eventos internos do organismo que, por diversos motivos, não estariam descritos. O que Fonseca e Zilio perceberam é que os escritos de Skinner são - refletindo as próprias tensões teóricas da concepção morfológica de organismo - ambíguos em relação a interpretações do tipo caixa-preta. Em certos momentos, Skinner rejeita explicações internalistas do comportamento (dos quais as interpretações do tipo caixa-preta são um exemplo):

“Para distinguir um operante de um reflexo eliciado, nós dizemos que a resposta operante é ‘emitida’. (Pode ser melhor dizer simplesmente que ela aparece, já que a emissão pode implicar em o comportamento existir dentro do organismo e então sair dele. Mas a palavra não precisa significar ejeção; a luz não está no filamento quente antes de ser emitida.)”. (Skinner, 1974, p.53)

Em outros, ele pressupõe a noção de caixa-preta:

Essa posição é às vezes caracterizada como tratar uma pessoa como uma caixa-preta e ignorar seus conteúdos. . . Mas nada está sendo ignorado. Analistas do comportamento deixam o que está dentro da caixa-preta para aqueles que têm os instrumentos e métodos para estudá-la propriamente. (Skinner, 1989, p. 24)

Se os analistas do comportamento reconhecem que há algo interno ao organismo e que há uma comunidade com ferramentas adequadas para estudar esse algo, então eles reconhecem as explicações do tipo caixa-preta como, em alguma medida, legítimas. Não se trataria, aqui, de afirmar que Skinner adere a algum tipo de explicação “neurocêntrica”, segundo a qual os “componentes principais” da caixa-preta seriam o sistema nervoso. Mas trata-se, isso sim, de reconhecer certa indefinição a respeito de como entender e como falar a respeito desses elementos internos. Por questões de síntese, não vamos descrever as tensões teóricas de todas as categorias; recomendamos, no entanto, a leitura do artigo (Fonseca & Zilio, 2018) original para que fiquem ainda mais claras as ambiguidades que o conceito de “organismo” produziu nas elaborações de Skinner.

O conceito de “organismo” no Behaviorismo para além de Skinner

De forma complementar à Fonseca e Zilio (2018), Fonseca e Zilio (2021) investigaram o uso do conceito de “organismo” no Behaviorismo Skinneriano para além dos textos do próprio Skinner. Eles organizaram a literatura em dois eixos: (a) concepções morfológicas de organismo e (b) concepções transdermais de organismo. Como é possível intuir, a principal diferença entre os dois eixos é adoção (concepção morfológica) ou não (concepção transdermal) da pele como critério necessário para delimitar um organismo.

Fonseca e Zilio identificam os trabalhos de Tonneau (2013a, 2013b, 2013c) como os mais representativos da concepção morfológica. Em Tonneau (2013a), a discussão sobre como delimitar o que é um organismo tem uma função específica: propor critérios para delimitar o que pode ou não ser classificado como comportamento. Segundo ele, Skinner teria proposto a interação com o mundo exterior como uma característica necessária de qualquer comportamento. Essa proposta estaria nos seguintes trechos de Skinner (1938): “é mais direto ao ponto dizer que comportamento é aquela parte do funcionamento de um organismo que está engajada em agir sobre ou ter comércio com o mundo externo” (p. 6) e

“Por comportamento, então, eu entendo simplesmente o movimento de um organismo ou de suas partes em um quadro de referência fornecido pelo próprio organismo ou por vários objetos externos ou campos de força. É conveniente falar sobre ele como a ação do organismo sobre o mundo exterior, e, com frequência, é mais desejável lidar com os efeitos de um movimento do que com ele próprio, como é o caso com a produção de sons.” (p. 6, itálicos adicionados).

Além dessa separação entre interno e externo ser relevante por ser feita no contexto de fundação do Behaviorismo Skinneriano, Tonneau (2013a) também propõe que ela seja levada a sério por, pelo menos, dois motivos. O primeiro é o de que o conceito de organismo entendido como um todo organizado e separado do ambiente externo é herdado da Biologia, reforçando o vínculo da ciência Análise do Comportamento com outra ciência mais antiga e bem estabelecida. O segundo é o de que a pele (ou outras barreiras de organismo, como a membrana de uma célula) tem funções biológicas relevantes (por exemplo, auxiliar na coesão espacial e na proteção do organismo) que barreiras simplesmente geométricas (como a parte externa de um robô) não teriam. De acordo com Fonseca e Zilio (2021), dentre outras dificuldades, a proposta de Tonneau (2013a) correria os mesmos riscos que o uso da concepção morfológica feita por Skinner (descritos na seção anterior), principalmente a de que o sistema nervoso poderia não ser visto só como um “mediador da interação entre organismo e ambiente” (Tonneau, 2013b) e sim como, ele próprio, o agente das ações.

As concepções transdermais são compreendidas por Fonseca e Zilio (2021) como propostas que entendem “organismo” como uma entidade que não é constituída apenas pela parte dentro da pele, mas também por processos que ocorrem além dela. Eles identificam três subgrupos de concepções transdermais: I) organismo como hospedeiro; II) organismo como bioprocesso; III) organismo como fluxo comportamental; as quais serão descritas a seguir..

Organismo como hospedeiro

A noção de organismo como hospedeiro se baseia no trabalho de Baer (1976). Nele, Baer antecipa uma das críticas ao uso do conceito de “organismo” feita por Roche e Barne (1997). Segundo ele, os experimentos comportamentais não lidam com os organismos como tal, mas sim com suas respostas - assim como Roche e Barne afirmam que, por exemplo, a tríplice contingência não faz menção ao organismo. Dessa forma, segundo Baer, seria possível traduzir para termos comportamentais as variáveis organísmicas de interesse. Isso possibilitaria analisar os fenômenos de interesse praticamente sem falar sobre os organismos em si, o que, no entanto, estaria em conflito com a afirmação de que a Análise do Comportamento estuda o comportamento dos organismos. Para resolver essa contradição, Baer descreve o organismo como um hospedeiro das respostas, o lugar onde elas acontecem.

Ao longo da leitura de Baer (1976), fica evidente que as preocupações ontológicas (o que é o organismo?) estão vinculadas a questões éticas (o que um behaviorista não deveria fazer). Nesse caso, o que não se deveria fazer é responsabilizar nem rotular o organismo por suas respostas: “é a essência do desrespeito atribuir ao organismo características de algumas de suas respostas” (Baer, 1976, p. 90). Isso porque ele é apenas seu hospedeiro, não podendo ser reduzido a elas. Apesar da pertinência dessas preocupações éticas, pode-se dizer que a concepção de organismo como hospedeiro está sujeita às mesmas críticas que Fonseca e Zilio (2018) fizeram à categoria de organismo como lócus do comportamento: essa definição não resolve a questão dita ontológica, apenas a transfere (criando mais dúvidas) para outro conceito (o que é um hospedeiro do comportamento?). O que seria esse hospedeiro/lócus? Quais das suas características possibilitam que ele hospede as respostas?

Organismo como bioprocesso

O estudo de Palmer (2004) - a partir do qual desenvolve-se a noção de bioprocesso - consiste em uma crítica do modo como a Psicologia como um todo tenta estabelecer diferenças entre organismo e ambiente. Mais especificamente, para Palmer (2004), toda a Psicologia da época (incluindo o Behaviorismo Skinneriano) adotaria o critério morfológico de demarcação. As dificuldades que Palmer encontra com esse critério não são, no entanto, relacionadas ao possível problema das explicações do tipo caixa-preta ou da atribuição de agência ao cérebro. Para entendê-las, vamos analisá-las a seguir.

A primeira dificuldade apontada por Palmer é, pode-se dizer, estrutural. Retomando Sumner (1922), Palmer argumenta que ninguém teria dúvidas em dizer se um ninho de passarinho faz parte do ambiente ou do organismo. Dúvidas poderiam começar a surgir se falássemos, ao invés disso, da carapaça de um molusco. O cenário seria ainda completamente diferente se falássemos do casco de uma tartaruga. Retomando Bentley (1927), Palmer argumenta que essa distinção entre organismo e ambiente é ainda mais difícil quando precisamos, por exemplo, definir o momento exato em que um nutriente deixa de fazer parte do ambiente e passa a constituir o organismo. Sendo assim, a dificuldade é estrutural, porque um simples critério físico, que faz referência a estrutura externa de um corpo, não seria suficiente para demarcar, de modo definitivo, o que é organismo e o que é ambiente.

A segunda dificuldade descrita por Palmer é a de que o conceito de organismo como utilizado pela Psicologia da época apresentaria uma visão estática do organismo. Nessa visão, o organismo seria como um objeto fixo e acabado que não sofre alterações enquanto interage com o ambiente. Ainda fazendo referência a questões estruturais, um exemplo de contraponto possível a visão estática é a de que o organismo passa por uma série de mudanças estruturais ao longo da vida (em postura, tamanho, células pelas quais é composto etc).

Para contornar ambas as dificuldades, Palmer propõe uma visão dinâmica do que é organismo, ou seja, uma visão que leva em conta a passagem do tempo. Levar em conta essa passagem implica em considerar como centrais as mudanças que acontecem na estrutura do organismo e naquilo que o cerca. Além de o organismo estar sempre em mudança, é extremamente difícil estabelecer o momento específico em que um certo elemento deixa de constituir o ambiente e passa a constituir o organismo. Como um critério morfológico de demarcação pressuporia conceber os limites do organismo como consideravelmente estáveis, ele seria inadequado para apreender o caráter dinâmico salientado por Palmer. Dessa forma, seria mais conveniente para a Psicologia abandonar a distinção organismo-ambiente e adotar como unidade de análise um conjunto de processos biológicos dinâmicos de transformação de elementos dispersos de uma cercania em uma certa unidade coesa (mas maleável). A esse conjunto de processos biológicos Palmer dá o nome de bioprocessos.

Organismo como fluxo comportamental

Os principais propositores da ideia de “fluxo comportamental” são os já citados Roche e Barnes (1997). Conforme descrito acima, Roche e Barnes sugerem a possibilidade de o conceito de “organismo” ser irrelevante para a Análise do Comportamento, já que as regularidades observadas por ela seriam entre respostas e ambiente e não entre organismo e ambiente. Ao contrário de Baer (1976), o qual, diante dessa mesma observação, procura elaborar uma definição de “organismo” que preserve a posição privilegiada do conceito no Behaviorismo, Roche e Barnes propõe o conceito de “fluxo comportamental” como forma de evitar qualquer referência a organismos. Segundo eles, o objeto de estudo da Análise do Comportamento são os fluxos comportamentais, entendidos como sequências contínuas entre respostas e eventos ambientais que, eventualmente, se bifurcam, formando fluxos comportamentais paralelos. Nessa visão, a tríplice contingência seria uma das ferramentas para estudar fluxos comportamentais, dividindo-os, didaticamente, em eventos estanques para melhor analisá-los.

Roche e Barnes afirmam que a referência a organismos no Behaviorismo teria persistido até então, porque o nascimento de um organismo poderia ser uma forma de identificar possíveis bifurcações em fluxos comportamentais. Mas, como as regularidades comportamentais são entre respostas e organismos, a relação entre bifurcação no fluxo comportamental e nascimento de um organismo não seriam necessárias; as bifurcações se deveriam, acima de tudo, a mudanças nas próprias relações de contingência entre respostas específicas e mudanças ambientais.

Convém ressaltar então, que o rótulo “organismo como fluxo comportamental” pode colocar os leitores de Fonseca e Zilio (2021) em uma pista falsa. Não se trata, para Roche e Barnes, de preservar o conceito de “organismo” no Behaviorismo ao entendê-lo com um fluxo comportamental. Trata-se, sim, de abandonar o conceito de organismo, substituindo-o pelo de fluxo comportamental.

Algumas observações

Depois dessa longa exposição, podemos concordar com a tese de Fonseca e Zilio (2018, 2021) de que a multiplicidade de significados do conceito de “organismo” existe em Skinner e persiste em seus sucessores. Além disso, podemos concordar também que essa multiplicidade traz consigo riscos de tensões teóricas entre ideias subjacentes a certas concepções de “organismo” e teses centrais do Behaviorismo Skinneriano. Podemos também concordar com Fonseca e Zilio de que essa multiplicidade de significados não é necessariamente sinônimo de confusão conceitual, mas sim de que diferentes autores têm diferentes compromissos teóricos. Dito de outra forma, a concepção de organismo defendida por cada autor vai depender da forma como cada um se posiciona diante de questões como qual seria o vínculo entre Análise do Comportamento e Biologia, qual a relevância de se separar eventos internos e externos de um organismo e quais compromissos éticos um analista do comportamento, dentre outras.

Cabe, enfim, uma última ressalva importante. A proposta dos trabalhos de Fonseca e Zilio (2018, 2021) foi identificar e organizar os diferentes usos do conceito de “organismo” no Behaviorismo Skinneriano e não necessariamente avaliar a pertinência de cada uso. No entanto, essa discussão seria muito enriquecida caso os diferentes usos de “organismo” fossem avaliados quanto a quais implicações cada uso tem para o conceito de comportamento. Independente (talvez) de ser dos organismos ou não, o objeto de estudo da Análise do Comportamento é, justamente, o comportamento. Identificar a relevância do conceito de organismo e, se relevante, qual concepção adotar são tarefas intermediárias e subordinadas a de entender e definir o que é comportamento.

Convém ressaltar que o conceito de comportamento está, em algum grau, também em disputa dentro do Behaviorismo (e.g. Carrara & Zilio, 2013; Lazzeri, 2013; Tonneau, 2013a, 2013b). Sendo assim, a pertinência de cada concepção de organismo está, principalmente, atrelada a quais consequências ela tem para a concepção de comportamento que venhamos a adotar.

Resenha de:

Fonseca, K., & Zilio, D. (2018). O “organismo” na obra de B. F. Skinner: Uma exploração contextual e quantitativa acerca de seu significado. Perspectivas em Análise do Comportamento, 9(2), 141-163. https://doi.org/10.18761/PAC.2018.n2.01

Fonseca, K., & Zilio, D. (2021). Apontamentos para uma concepção contexto-dependente de “organismo”. Acta Comportamentalia, 29(1).

Referências:

Baer, D. M. (1976). The organism as host. Human Development, 19, 87–98. https://doi.org/10.1159/000271519

Bentley, M. (1927). Environment and context. American Journal of Psychology, 39, 54-61. 

Carrara, K., & Zilio, D. (2013). O comportamento diante do paradigma behaviorista radical. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(1).

Clarke, E. (2011). The problem of biological individuality. Biological Theory, 5(4), 312-325. https://doi.org/10.1162/BIOT_a_00068

Lazzeri, F. (2013). Sobre o conceito de comportamento: alguns breves comentários. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(2).

Palmer, D. K. (2004). On the organism-environment distinction in psychology. Behavior and Philosophy, 317-347.

Reber, A. S. (1995). The Penguin dictionary of psychology. Penguin Press.

Roche, B., & Barnes, D. (1997). The behavior of organisms? The Psychological Record, 47, 597–618. https://doi.org/10.1007/BF03395248

Skinner, B. F. (1938). The behavior of organisms: An experimental analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York: Alfred A. Knopf.

Skinner, B. F. (1989). Recent issues in the analysis of behavior. Columbus: Merril Publishing.

Skinner,B. F. (1999a), Cumulative record: Definitive edition (pp. 316-329). The B. F. Skinner Foundation.

Skinner, B. F. (1999b). Current trends in experimental psychology. In B. F. Skinner, Cumulative record: Definitive edition (pp. 316-329). The B. F. Skinner Foundation. (Obra original publicada em 1947).

Sumner, F. B. (1922). The organism and its environment. The scientific monthly, 14(3), 223-233.

Tonneau, F. J. (2013a). Comportamento e a pele. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(1), 66–73. http://dx.doi.org/10.18542/rebac.v9i1.2132

Tonneau, F. J. (2013b). Comentários sobre o conceito de comportamento. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(2), 122-124. http://dx.doi.org/10.18542/rebac.v9i2.2404

Tonneau, F. J. (2013c). A pele como fronteira: Réplicas aos comentários. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(2), 148-150. http://dx.doi.org/10.18542/rebac.v9i2.2408


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