Escrito
por Divaldo de Canavarros de Abreu Junior
“Onde quer que eu ‘ROE-M’ (Roam), lá estou.” (Harte & Barnes-Holmes, 2021).
Quando
o texto seminal de Hayes, Barnes-Holmes e Roche foi publicado em 2001, a
promessa era audaciosa: oferecer uma abordagem analítico-comportamental ampla
sobre a linguagem e a cognição humana. Duas décadas depois, a Teoria das
Molduras Relacionais (RFT) encontra-se em um fluxo de sofisticação conceitual e
empírica. (Para mais detalhes introdutórios da RFT ver Perez et al., 2017).
No
artigo "Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and
beyond", publicado no Journal of the Experimental Analysis of
Behavior, Dermot Barnes-Holmes e Colin Harte convidam a comunidade a
embarcar nos desdobramentos de um programa de pesquisa financiado pela Flanders
Science Foundation (o programa Odysseus, sediado na Universidade de
Ghent entre 2015 e 2020). Longe de ser apenas uma narrativa histórica, o artigo
estabelece uma expansão teórica que estende a RFT para além do volume clássico
de 2001.
A
consolidação metodológica e conceitual desse fenômeno formalizada rigorosamente
por Sidman e Tailby (1982) por meio dos testes de reflexividade, simetria e
transitividade, e posteriormente expandida por Sidman (2000) em uma teoria
analítico-comportamental unificada, fundamentou as bases para os desdobramentos
seguintes. A constatação de que seres humanos derivam relações sem reforço
direto, algo que Sidman e outros pesquisadores apontaram como geralmente
ausente ou fraco em espécies não humanas, solidificou o elo indissociável entre
equivalência e linguagem verbal (Hayes, Barnes-Holmes & Roche, 2001).
A RFT
avançou ao propor que o responder relacional arbitrariamente aplicável (RRAA)
funciona como um operante generalizado. O texto sintetiza as propriedades
fundamentais do quadro relacional clássico:
Implicação Mútua: Refere-se a uma relação bidirecional entre dois estímulos.
Por exemplo, se X é menor que Y, mutuamente se estabelece que Y é maior que X.
Implicação Combinatória: Refere-se a relações inovadoras que emergem entre
estímulos quando três ou mais elementos são relacionados. Se você aprende que:
X é menor que Y E que Y é menor que Z. Você descobre que: X é menor que Z (e
que Z é maior que X).
Transformação de Funções de Estímulo: A alteração das propriedades
psicológicas de um estímulo a partir de sua inserção em uma rede relacional,
ocorrendo na ausência de reforço direto, instrução ou indução explícita. Se
você aprende que X<Y<Z e leva um choque direto apenas com Y, a função de
Z se transforma automaticamente e você passa a ter mais medo dele
(porque ele é "maior" que o perigo), enquanto X passa a gerar menos
medo (por ser "menor"), sem que você nunca tenha recebido um
choque com nenhum dos dois.
No
modelo tradicional da RFT, esses processos operam sob o controle de pistas
contextuais relacionais (Crel), que determinam o tipo de relação, e pistas
contextuais funcionais (Cfunc), que controlam as funções comportamentais e a
transformação de função produzida. A grande mudança de rota apresentada para
além do volume de 2001 reside na ênfase dada à cooperação humana altamente
desenvolvida como o principal motor evolutivo do RRAA.
Em vez
de focar no início da linguagem puramente no falar ou ouvir, os autores sugerem
que a história crítica começa com o orientar mutuamente entrelaçado. Essa é uma
classe de comportamento que ocorre especificamente no contexto de um ato
cooperativo entre um cuidador e um bebê humano para mais detalhes sobre o tema
ver Tomasello et al. (2005).
O Modelo HDML e a
Unidade ROE-M: A Hiperdimensionalidade do Comportamento
A
maior contribuição contemporânea revisada no artigo é a formalização do modelo
HDML (Hyper-Dimensional, Multilevel Framework). O modelo supera análises
puramente focadas no quadro relacional isolado ao cruzar níveis de
desenvolvimento com dimensões dinâmicas.
O framework especifica
cinco níveis de desenvolvimento relacional:
1.
Mutuamente implicado;
2.
Combinatoriamente implicado;
3.
Em rede relacional;
4.
Relacionando relações;
5.
Relacionando redes relacionais.
Esses níveis cruzam-se
dinamicamente com quatro dimensões:
Coerência: Grau em que o padrão de RRAA é consistente com padrões
estabelecidos anteriormente pela comunidade verbal.
Complexidade: A densidade, o detalhamento ou o número e tipos de relações
envolvidas na resposta.
Derivação: A extensão em que um padrão relacional específico foi
emitido anteriormente, diminuindo à medida que ganha histórico próprio.
Flexibilidade: O grau em que o padrão relacional pode ser modificado por
variáveis contextuais atuais.
A
intersecção entre esses cinco níveis e quatro dimensões gera 20 unidades
analítico-abstratas de análise, que dão suporte à nova unidade genérica do
comportamento humano: o ROE-M.
O que
é o ROE-M? Sigla para Relacionar,
Orientar, Evocar e Motivar. O argumento central é que qualquer ato
psicológico humano envolve uma interação dinâmica, não linear e simultânea
entre esses quatro elementos. Dito de outra forma, o ROE-M é a unidade de
análise contemporânea do comportamento verbal e da cognição humana dentro da
Teoria das Molduras Relacionais (RFT).
|
Níveis de Complexidade |
Coerência |
Complexidade |
Derivação |
Flexibilidade |
|
1. Relacionando
Estímulos (Mútua/Combinatória) |
O sentido faz lógica
imediata para o indivíduo (ex: A=B). |
Envolve poucas
propriedades ou estímulos simples na rede. |
A velocidade em
derivar a relação sem treino direto (A > B induz B > A). |
A facilidade em
reverter a relação se o contexto mudar (ex: agora A é diferente de B). |
|
2. Em Rede Relacional (Sentenças/Histórias) |
A narrativa ou
história contada mantém consistência interna. |
O tamanho e a
densidade da rede (várias molduras conectadas: coordenação, distinção,
oposição). |
Como novas histórias
são inferidas a partir de pedaços de informações soltas. |
A capacidade de mudar
de perspectiva sobre uma história quando surgem novos dados. |
|
3. Relacionando
Relações (Analogias/Metáforas) |
A analogia faz sentido
contextual (ex: "A estrutura do átomo é como o sistema solar"). |
Exige correlacionar
duas redes completas distintas ao mesmo tempo. |
A rapidez em captar o
significado oculto ou abstrato de uma nova metáfora. |
Conseguir ver
múltiplos significados ou subverter a função de uma analogia clássica. |
|
4. Relacionando Redes (Sistemas
de Crenças/Self) |
Alinhamento macro (ex:
como minha visão de mundo se encaixa com quem eu sou, Self Verbal). |
O nível mais alto;
envolve ideologias, regras de vida complexas e cosmovisões. |
Como o indivíduo deduz
seu valor ou o futuro a partir de sistemas conceituais inteiros. |
Flexibilidade
Psicológica: Capacidade de se descolar de redes rígidas (defusão) sob demanda
adaptativa. |
Evidências de Laboratório: O IRAP e o Modelo DAARRE
O
artigo demonstra como essa evolução teórica foi impulsionada por investigações
empíricas com o Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP). O IRAP
é um procedimento computadorizado desenvolvido originalmente dentro da RFT para
medir a força e a probabilidade de padrões naturais de RRAA por meio de
latências de resposta sob pressão de tempo (Barnes-Holmes et al., 2006).
O
modelo DAARRE (Differential Arbitrarily Applicable Relational Responding
Effects) foi inicialmente formulado
por Dermot Barnes-Holmes e seu grupo de pesquisa para explicar as assimetrias
encontradas em um estudo fundamental e aparentemente simples: o famoso teste
computadorizado de "Cores e Formas" (Shapes-and-Colors IRAP). Para
mais detalhes do estudo ver (Finn et al., 2018).
O
modelo DAARRE demonstra que o desempenho em tarefas verbais rápidas é
determinado pelo nível de sobreposição e coerência funcional entre as
propriedades contextuais (Crel e Cfunc) dos estímulos e os Indicadores de
Coerência Relacional (RCI) usados como opções de resposta (Barnes-Holmes &
Harte, 2022). A coerência funcional, nesse sentido, refere-se à consistência
entre a função de estímulo (o impacto psicológico ou significado da pista) e as
demandas da resposta exigida pela tarefa.
A
inclusão de operações motivacionais (OM) biológicas manipulações diretas de
estados de privação e saciação ilustra com precisão a maleabilidade situacional
que rege o funcionamento do modelo ROE-M (Relacionar, Orientar, e Evocar a
Motivação contextual). O que diferencia essas variáveis de manipulações
puramente instrucionais (como regras verbais sobre o valor de um reforçador) é
a alteração imediata e incondicionada do valor de sobrevivência do estímulo e
da probabilidade da resposta, sem a necessidade de treino verbal prévio. No cenário
experimental, enquanto uma variável motivacional instrucional altera o
comportamento via rede de relações derivadas (ex.: "imagine que você está
com sede"), a variável biológica ou incondicionada altera o estado
fisiológico do organismo de forma imediata, exercendo um controle contextual
direto e de alta magnitude sobre as propriedades evocativas dos estímulos.
Um
exemplo metodológico dessa distinção é o estudo de Gomes et al. (2020). Os
pesquisadores estabeleceram, via treino de pareamento ao modelo, classes de
equivalência entre estímulos abstratos (formas geométricas) e imagens de copos
de água. Em seguida, os participantes foram submetidos ao IRAP sob três
condições motivacionais distintas: saciação (livre consumo de água antes do
teste), neutra e privação aguda (induzida quimicamente no momento do teste por
gotas de molho de pimenta na língua).
No
desenho do IRAP, essa manipulação afetou diretamente a dinâmica de respostas
rápidas. O dispositivo apresentou os estímulos abstratos (estímulos-modelo) pareados
a palavras-alvo de confirmação (ex.: "Quero", "Água") ou
negação (ex.: "Não", "Evitar"). Os participantes deveriam
responder sob duas regras de blocos: uma coerente com a busca por água (regra
pró-consumo) e outra incoerente (regra de esquiva/neutralidade).
A
ardência imediata da pimenta atuou como uma Operação de Estabelecimento (OE),
alterando drasticamente o contexto motivacional da tarefa. Ao aumentar o valor
apetitivo da água instantaneamente, a OE maximizou a propriedade funcional
(Cfunc) dos estímulos abstratos que faziam parte da classe de equivalência da
água. No nível do ROE-M, a privação aguda evocou uma forte resposta de
orientação (O) para os estímulos da água e potencializou a função evocativa (E)
das respostas direcionadas à confirmação do consumo.
Em
termos de mensuração, o IRAP capturou esse fenômeno por meio dos escores D-IRAP
(calculados a partir da latência de resposta em milissegundos) (Barnes-Holmes
et al., 2018). Na condição de privação aguda, os participantes demonstraram uma
facilitação cognitiva (respostas significativamente mais rápidas e com menor
taxa de erro) estritamente nos blocos em que a regra exigia confirmar a relação
entre os estímulos abstratos e a busca por água. Esse viés relacional
acentuado, quando comparado às condições neutra e de saciação, evidenciou como
uma operação motivacional de base biológica é capaz de modular a força e a
velocidade de redes relacionais derivadas em tempo real.
Considerações
Críticas: Avanços e Desafios para a Comunidade
O esforço de Barnes-Holmes e Harte (2022) em
expandir a RFT (Teoria dos Quadros Relacionais) aproxima a análise do
comportamento da complexidade real encontrada no ambiente clínico e cotidiano.
Ao integrar de forma indissociável a atenção (orientar), o afeto (evocar), a
motivação (motivar) e a cognição (relacionar) sob uma mesma matriz operante (o
modelo ROE-M), os autores oferecem ferramentas conceituais que transicionam do
desenho experimental para a prática terapêutica. Na clínica, essa aproximação
ocorre quando o terapeuta deixa de analisar o relato verbal (relacionar) de
forma isolada e passa a rastrear, em tempo real, como esse relato evoca
respostas emocionais na sessão, orienta a atenção do paciente para estímulos
específicos e modifica sua motivação para agir. Essa transposição amplia
significativamente a aplicação da teoria ao fornecer um mapa tridimensional
para intervenções complexas, como a reestruturação do Self simbólico, o treino
de tomadas de perspectiva (dêíticos) e a flexibilização do seguimento rígido de
regras, permitindo que o clínico manipule essas quatro dimensões de forma
integrada e contextualizada, em vez de tratá-las como processos psicológicos
separados.
Contudo,
como os próprios autores reconhecem de forma transparente, grande parte das
novas formulações (como os comportamentos pré-natais no chamado "triângulo
de emaranhamento") é altamente especulativa e baseada em uma teorização
molar. Além disso, o framework gera termos conceituais novos cujo valor a longo
prazo dependerá inteiramente de sua utilidade demonstrada na literatura pela
comunidade científica. Serão necessários mais estudos analíticos em contextos
de interações diversas para validar se as 20 células do HDML mantêm sua
utilidade prática e indutiva.
Conclusão
O
artigo "Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and
beyond" é uma leitura instigante. Longe de ser um dogma fechado, a RFT
mostra-se viva e responsiva.
O
texto funciona como um mapa atualizado que nos desafia a olhar para além do
horizonte clássico e a compreender o ser humano verbal como um organismo que
constantemente está "ROE-ning" através de um fluxo dinâmico,
não linear e profundamente contextualizado de eventos comportamentais.
Agradeço
a leitura e a revisão cuidadosa feita pelo Dermot Barnes-Holmes, Camila Abigail
Ocariz Duré e do Eduardo Cunha Vilela. Espero que este texto tenha estabelecido
uma relação de coordenação com o seu interesse pelo tema. Mas, se você ainda
ficou com dúvidas, não se preocupe, é hora de continuar a 'ROE-M' por aí e
derivar o resto.
Artigo Analisado: Barnes-Holmes, D., & Harte, C.
(2022). Relational frame theory 20 years on: The Odysseus voyage and beyond. Journal
of the Experimental Analysis of Behavior, 117(2), 240-266.
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