segunda-feira, 5 de outubro de 2026

[Entrevista] Masculinidades e Análise do Comportamento: entrevista com João Holanda

 Por Paula Helena Gomes de Moraes Ruiz

A sala estava lotada, com gente sentada no chão. Assim foi a roda de conversa “Precisamos Falar Sobre os Homens: Um diálogo sobre Análise do Comportamento e as Masculinidades”, mediada por João Holanda no XXXV Encontro da ABPMC, realizado de 2 a 5 de setembro de 2026 na PUC Minas – Coração Eucarístico, em Belo Horizonte (MG). No dia 4 de setembro, logo após a roda, no intervalo do evento, o Boletim Contexto conversou com ele sobre a experiência, os desafios da análise do comportamento diante do tema e o que significa falar de masculinidades no plural.

Uma ideia atravessa toda a conversa: para João, discutir novas masculinidades não é trocar um modelo de homem por outro, mas ampliar o que se entende por ser homem.


Quem é João Holanda

João Mendes Gomes Brasil de Holanda é psicólogo e mestre em Psicologia pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), com dissertação sobre a construção das identidades masculinas entre estudantes do ensino médio, e doutorando em Psicologia do Desenvolvimento e Escolar na Universidade de Brasília (UnB), onde pesquisa o consumo problemático de pornografia. Tem formação em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) e terapia de casal (IBAC). Atua na clínica com foco no atendimento a homens e casais. É autor do capítulo Os homens amam? Um olhar analítico-comportamental sobre masculinidades (Appris, 2025) e recebeu o Prêmio Silvia Lane (ABEP, 2017) e o Prêmio Ignite (ACBS Brasil, 2021).


Boletim Contexto [Paula Helena]: Como foi para você falar sobre esse tema aqui no evento da ABPMC? E como o público recebeu a roda?

João Holanda: Foi ansiogênico, não vou mentir, mas foi muito bom. Pelo que me disseram, foi o primeiro evento sobre masculinidades aqui, o único da programação. Então, de um lado, fiquei muito lisonjeado; de outro, isso já indica a pressão, o nervosismo de abordar o tema. A sala estava lotada, gente sentada no chão, e a turma foi muito participativa. A minha ideia foi propor realmente uma roda de conversa. Não preparei slides nem uma aula propriamente dita: preparei perguntas norteadoras e fiquei mais no papel de mediador, introduzindo alguns conceitos e problematizando algumas coisas.

E eu nem consegui seguir o roteiro que tinha planejado, porque a conversa foi tomando vários rumos e a galera estava interessada. Acho que esse é o principal ponto a ser enfatizado: existe uma demanda para esse tema.

Boletim Contexto [Paula Helena]: E o que vocês tiraram dessa conversa?

João Holanda: Ainda estou processando, digerindo tudo, mas acho que a gente conseguiu fazer um movimento muito bacana. Primeiro, apontar questões mais amplas, macrocontingências, variáveis culturais e sociais: como essas diferenças vão sendo criadas, o que é ser homem na nossa sociedade, quais são os custos de ser homem e quais são os reforçadores desses estereótipos. Mas teve uma virada de chave: OK, tem esse contexto social mais amplo, mas e na nossa vida?

Aí entrou uma pergunta que eu acho muito mobilizadora, que sempre trago nos meus atendimentos e quis trazer para a roda: quem é um homem da nossa vida que a gente admira? Eu trabalho com a análise do comportamento, mas também com as terapias contextuais, e o que estou perguntando aqui é sobre valores. Isso traz o tema para perto. E é importante dizer: não é o Einstein, o Skinner, alguém distante, mas um homem do dia a dia, com quem a gente já conviveu.

E a gente vai vendo que, às vezes, é um homem que seguia muito aquele estereótipo que a gente mesmo criticou, “o homem acha que só tem que ser o provedor”. Mas teve um participante que trouxe: “Meu pai era esse cara, mas ele sempre me levava na escola, participava das reuniões”. Então existe uma certa zona cinzenta, que de alguma forma distensiona o debate e faz com que ele deixe de ser apenas masculinidades versus feminilidades. Existem diferenças, existem desigualdades, mas a turma conseguiu chegar num ponto que é: beleza, a gente está ciente dessa questão, ela está presente na nossa sociedade. E agora, o que a gente faz com isso?

Claro que a gente ainda não consegue mudar a sociedade. Mas essa é uma pergunta que eu levo para a clínica, que trouxe para um evento científico, e as pessoas já começaram a se mobilizar. Acho que a transformação começa daí: de uma pergunta que leva as pessoas a refletirem sobre coisas que talvez nunca tivessem pensado e a perceberem que isso não é apenas falar do outro, é falar de nós.


Boletim Contexto [Paula Helena]: Para quem não pôde assistir, qual a mensagem-chave que você gostaria de deixar?

João Holanda: Que esse diálogo é possível e tem interesse. Tem demanda, mas ainda é algo muito incipiente, e a gente precisa agregar forças. Na roda, falamos bastante de psicanálise, de sistêmica, de psicologia social, de produções latino-americanas. Mas cadê a análise do comportamento? A gente ainda não tem muito.

Ao mesmo tempo, ficou claro ali como existem pessoas com o olhar da análise do comportamento, um olhar crítico, interessado, e a gente precisa começar a produzir mais sobre isso. A gente tem a faca e o queijo na mão: uma ciência que dá conta disso e que consegue até promover mudanças. Esse foi muito o sentido da roda. Além de conseguir analisar o fenômeno, com uma ciência e uma tecnologia para isso, a gente tem um potencial de intervenção.

Boletim Contexto [Paula Helena]: Quais desafios a análise do comportamento ainda precisa enfrentar ao falar sobre homens e masculinidades?

João Holanda: O principal desafio é que a gente ainda não fala o suficiente sobre isso. E esse silêncio não está aí à toa, algo que também apareceu na roda: o que a gente fala ou deixa de falar cumpre uma função, e calar também é reproduzir uma série de normas.

Numa cultura em que o homem ocupa um lugar de privilégio, de predominância, e muitas vezes é usado como a norma, o referencial a partir do qual o outro vai ser construído, a gente já faz o trabalho de falar do outro, mas não fala da norma. Precisamos falar dela, até para começar a questionar e tensionar essa própria norma.

Não se nasce homem, torna-se homem

Boletim Contexto [Paula Helena]: E que masculinidade é essa de que estamos falando, na perspectiva da análise do comportamento?

João Holanda: São masculinidades, no plural. Mas masculinidades muito ancoradas num modelo, numa regra social. Aqui entra de novo o diálogo com outras áreas: a sociologia fala muito em masculinidade hegemônica, termo cunhado pela socióloga australiana Raewyn Connell. Vamos entender isso como o conjunto de regras, expectativas e reforçadores do que seria ser homem.

A análise do comportamento vai ajudar a discriminar isso: quais são as aprendizagens que nos ensinam a ser homem? Quais são os estímulos discriminativos? Ser homem é se comportar dessa forma ou deixar de se comportar daquela outra. Então a análise do comportamento não vai dizer o que é ser homem, mas vai ajudar justamente a partir daquela máxima de Simone de Beauvoir — “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Não se nasce homem, torna-se homem. Essa é a perspectiva.

Aprendendo a conviver com homens a partir da clínica

Boletim Contexto [Paula Helena]: Na sua trajetória, o quanto você se encaixou e se desencaixou de grupos?

João Holanda: Bastante. Acho que a minha trajetória profissional anda muito junto com a pessoal. Sempre tive muito mais facilidade em ter amizades com mulheres. Fui fazer psicologia, um curso predominantemente feminino, então meu círculo social acabava sendo muito com mulheres. E vinha um estranhamento, um deslocamento quando eu estava com outros homens. No um a um, beleza, tinha alguns amigos com quem eu conseguia me aproximar mais. Mas naquela roda dos caras, eu escolhia não participar. Uma coisa que eu vejo: tenho filho pequeno, e nos eventos da escola parece automático, chegou, as mães vão para um lado, os pais vão para o outro.

Até que, na vida profissional, aconteceu o seguinte: um psicólogo homem numa área predominantemente feminina. Várias amigas começaram a me dizer: “João, eu atendo uma mulher e o marido dela está procurando terapeuta. Ele queria ser atendido por um homem. Você pode atender?”. Eu estava começando minha clientela: lógico, manda aí. Quando vi, só estava atendendo homem. Hoje, 90% da minha clientela é masculina.

E foi curioso, porque acho que comecei a reaprender, ou aprender, a conviver com homens a partir da clínica. E, quando fui entendendo isso, mudou até a forma como eu interajo com homens fora da clínica. Claro que ainda tenho uma certa birra quando tem muito homem junto. Vou escolhendo os espaços, talvez participando de grupos mais mistos.

Da oposição à ampliação

Boletim Contexto [Paula Helena]: Como falar do sofrimento dos homens sem cair numa disputa?

João Holanda: Acho que as duas coisas podem conviver. Uma não necessariamente anula a outra. E essa é uma mensagem central que saiu da roda. Por muito tempo a gente falou nesse esquema de oposição: o masculino em oposição ao feminino. A gente entende como, culturalmente, várias identidades são formadas em oposição, mas acho esse debate pouco produtivo. É mais importante falar de ampliação.

“O homem é o trabalhador.” OK, posso até questionar isso — o valor dele não está só aí —, mas ele também pode ser um homem trabalhador e que cuida dos filhos e da casa. O homem que não fala “eu te amo”, mas que está ali com os filhos, superpresente, superparceiro. Se eu falei de uma masculinidade hegemônica, que seria mais ou menos essa caixinha, a gente precisa ampliar isso, ampliar o nosso conceito do que é ser homem na nossa sociedade. São duas perspectivas que não são antagônicas: falar de uma é falar da outra; uma afeta a outra.

O papel da análise do comportamento

Boletim Contexto [Paula Helena]: Qual deveria ser, então, o papel da análise do comportamento no debate sobre gênero e masculinidades?

João Holanda: É ampliar esse debate, ultrapassar as oposições. É pensar em intervenções que levem esses homens a entrar em contato com uma série de coisas das quais, culturalmente, eles foram se esquivando: ampliar o repertório comportamental, promover flexibilidade psicológica, promover intimidade, relações mais íntimas, e aqui estou resgatando a análise do comportamento, a FAP. É entender essa discussão social mais ampla, mas levar as nossas intervenções nesse caminho de ampliar a masculinidade de que estamos falando.

E tem um ponto que você trouxe e que acho importante: o quanto o lugar de onde falamos também é de privilégio. Privilégio acadêmico, científico, de quem pode abrir mão de uma agenda de trabalho para aprender e discutir ideias. Então, o papel da análise do comportamento, falando aqui de nós, comunidade de analistas do comportamento, também é questionar e tensionar os nossos próprios privilégios: ouvir pessoas que não são os mesmos nomes de sempre, trazer temas que geralmente não aparecem na nossa programação, estar abertos a isso.

Encerramento

Saí da conversa com a impressão de que o João trouxe uma pergunta que muda o ponto de vista: quem é um homem da sua vida que você admira? Ela tira o debate do abstrato e o leva para a nossa própria história, onde o pai provedor pode ser também o pai que ia às reuniões da escola. Para a comunidade de analistas do comportamento, o convite tem duas partes. A primeira é reconhecer que o silêncio sobre os homens também cumpre uma função. A segunda é usar o que já temos, a análise das contingências que ensinam a ser homem e as tecnologias de intervenção, para ampliar o repertório masculino em vez de apenas opor masculino e feminino. Se ninguém nasce homem, e sim se torna homem, esse processo também pode mudar. Que a sala cheia em Belo Horizonte seja o começo dessa conversa, e não um episódio isolado.

Para saber mais

Holanda, J. M. G. B., & Castro, D. P. (2025). Os homens amam? Um olhar analítico-comportamental sobre masculinidades e o comportamento dos homens em relacionamentos amorosos heteroafetivos. In L. B. Nery & M. B. O. Borges (Orgs.), Relações amorosas, terapia de casais e análise do comportamento (pp. 97–118). Appris.

Holanda, J. M. G. B., & Madureira, A. F. A. (2022). The construction of male identities from the perspective of high school students. Pensamiento Psicológico, 20, 1–13.

 

Uso de IA generativa: Na preparação deste texto, a autora usou o Claude (Anthropic) para transcrever o áudio da entrevista, condensar e organizar o texto, com revisão final da autora e aprovação do entrevistado. Nenhuma ferramenta de IA foi usada para gerar dados, análises ou referências. A autora assume total responsabilidade pelo conteúdo publicado.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026


 

Por que ler ficção pode te tornar um terapeuta melhor

Por Aline Simões


“Eu vi minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto.

Da ponta de cada galho, como um figo roxo e gordo, um futuro maravilhoso me chamava com uma piscadinha. Um figo era um marido numa casa feliz com filhos, e outro figo era uma poeta famosa e outro figo era uma professora universitária brilhante (...), e acima e além desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar direito.

Eu me vi sentada entre as raízes dessa figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia decidir qual dos figos escolher. Eu queria todos eles, todos, mas escolher um era perder os outros e, enquanto eu ficava ali parada, incapaz de tomar uma decisão, os figos iam murchando e ficando escuros, e, um a um, começavam a se espatifar aos meus pés.”

 

Esse trecho poderia ser uma metáfora da ACT - falando bem sobre fusão cognitiva e o distanciamento de uma ação comprometida com valores - mas é parte do romance “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath. Em meio a uma grande oferta de cursos, aprofundamentos e dicas para aprimorar a técnica, tenho encontrado refúgio e inspiração clínica na literatura de ficção.

[Entrevista] Masculinidades e Análise do Comportamento: entrevista com João Holanda

  Por Paula Helena Gomes de Moraes Ruiz A sala estava lotada, com gente sentada no chão. Assim foi a roda de conversa “Precisamos Falar So...