sexta-feira, 5 de junho de 2026

[ARTIGO] Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento


Diogo Esmeraldo Cavalcanti


Este texto é um resumo do artigo “Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento”, publicado em 2025, cuja autoria é de Lívia Balog. A introdução do texto de Balog (2025) parte de Sigmund Freud e sua obra “O mal-estar na civilização”, na qual a religião é compreendida como uma ilusão. Em contraposição, surgida na troca de cartas entre Freud e um amigo (cujo nome não é citado no texto), surge a noção de um “sentimento oceânico”, descrito como uma experiência de infinitude e ausência de limites, cuja origem Freud buscou explicar teoricamente. Cabe esclarecer que religião e experiência religiosa são entendidos como fenômenos diferentes e no texto o segundo é descrito como fonte do primeiro.

Na Análise do Comportamento, B. F. Skinner iniciou a compreensão da religião como agência de controle (Padilha, Fazzano, & Gallo, 2022; Skinner, 1953/2003), mas estudos mais recentes sugerem que a experiência religiosa envolve também dimensões subjetivas. Nesse sentido, o “sentimento oceânico” passa a ser investigado como experiência privada ainda pouco explorada e que, possivelmente, é comum a todas as religiões (Balog, 2025).





Hayes (1984/2019) amplia essa discussão ao relacionar espiritualidade a processos de linguagem, tomada de perspectiva e autoconsciência. A partir dessa ótica, experiências sem limites definidos podem emergir do próprio funcionamento da linguagem, aproximando-se, possivelmente, do sentimento oceânico descrito por Freud. Esse é o principal ponto de investigação de Balog (2025).

Com os avanços da Teoria das Molduras Relacionais (RFT), tem ganhado relevância o conceito de “eu-como-contexto”, entendido como a capacidade de observar pensamentos e sentimentos sem se confundir com eles (Hayes et al., 2021), constituindo um senso de self amplo e estável. A espiritualidade, por sua vez, é reconhecida como dimensão relevante da experiência humana, associada a práticas culturais (Fornazari & Ferreira, 2010; Kao, Peteet & Cook, 2020; Koenig, 2009; Landau et al., 2018) e à busca de sentido na vida (Keyes, 2011).

Diante disso, surgem as questões do trabalho: o que é o sentimento oceânico? A AC poderia contribuir para a compreensão dessa vivência? Seria possível mensurar e/ou treinar esse tipo de experiência? O objetivo do trabalho foi, portanto, aprofundar discussões sobre como o eu-como-contexto se relaciona com a autoconsciência, a espiritualidade e o bem-estar.

Para responder a essa questão, Balog (2025) dividiu o texto em duas sessões. A primeira versa sobre as noções de autoconsciência, comportamento simbólico e espiritualidade, incluindo concepções comportamentais relacionadas à Teoria da Equivalência de Estímulos e as molduras dêiticas (RFT). A segunda elaborando uma reflexão sobre a possibilidade de treino do senso de unidade ou sentimento oceânico.

Primeiramente, Balog (2025) destaca que a Teoria da Equivalência de Estímulos, proposta por Sidman (1971), ampliou a compreensão analítico-comportamental da cognição e da linguagem ao demonstrar a emergência de relações entre estímulos sem treino explícito (de Rose, 1993; Sidman, 1994). Esse avanço contribuiu para explicar processos como formação de conceitos, significado e o desenvolvimento do senso de eu.

Já a autoconsciência pode ser entendida como a capacidade de o indivíduo reconhecer e responder a si mesmo como um ser distinto, processo desenvolvido nas interações sociais e moldado por contingências sociais verbais (de Rose, 1982). A comunidade verbal favorece esse repertório ao estimular a discriminação do próprio comportamento por meio de perguntas sobre ações, pensamentos e experiências.

A Teoria das Molduras Relacionais (RFT) amplia essa compreensão ao investigar respostas relacionais arbitrárias, mediadas por dicas contextuais (Hayes et al., 2001). Essas relações incluem comparação, hierarquia, causalidade e, especialmente, as molduras dêiticas — eu-você, aqui-lá e agora-então — fundamentais para a tomada de perspectiva e para a emergência da autoconsciência (Hayes et al., 2021).

Segundo Hayes (2002), essa perspectiva do eu pode corresponder ao que as tradições religiosas descrevem como espírito ou alma. Em práticas meditativas e religiosas, a experiência da consciência como a própria “tomada de perspectiva” é frequentemente reforçada. Balog (2025) argumenta que, embora menos difundida no Ocidente, essa experiência pode emergir do desenvolvimento do eu-como-contexto.

Além disso, o aprendizado da distinção entre o eu e o outro possibilita experiências de unidade relacional. Quando eu e outro são experienciados como integrados em um mesmo contexto, pode emergir uma sensação de transcendência e união, aproximando-se do self transcendental descrito por Barnes-Holmes et al. (2001).

Com base nisso, Balog (2025) propõe que o sentimento oceânico pode ser compreendido como resultado da expansão das molduras dêiticas, em que o eu-como-contexto se amplia para incluir o outro e, em última instância, o todo, que seria a noção de Deus, de unidade, uma noção mais abrangente de locus de ação. Trata-se de uma experiência de unidade que, embora derivada de contingências verbais arbitrárias relacionadas ao desenvolvimento da autoconsciência, transcende a palavra e os conceitos verbais, sendo uma experiência não-verbal.

Quanto à possibilidade e desejabilidade do treino do senso de unidade ou sentimento oceânico, Balog (2025) inicia argumentando que estudos indicam que experiências de autotranscendência estão associadas a melhores indicadores de qualidade de vida, sendo frequentemente promovidas por práticas religiosas e contemplativas (Koenig, 2009; Panzini et al., 2017). Nesse contexto, o treino de tomada de perspectiva e a flexibilização das relações verbais podem favorecer respostas mais adaptativas em diferentes contextos e contribuir para intervenções terapêuticas voltadas ao desenvolvimento de um senso de unidade.

Balog (2025) destaca a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) como uma abordagem relevante nesse processo. Nela, o eu-como-contexto é compreendido como a capacidade de observar a própria experiência de forma ampla e sem julgamento, promovendo distanciamento de pensamentos e emoções (Hayes et al., 2021). Associado a isso, o processo de desfusão permite reconhecer eventos internos como transitórios, enquanto a aceitação envolve a abertura à experiência presente sem esquiva. Esses três processos — eu-como-contexto, desfusão e aceitação — atuam conjuntamente para reduzir a dominância das relações verbais e favorecer uma relação mais flexível com a experiência.

A ACT apresenta aproximações com tradições como o budismo, especialmente na compreensão do sofrimento como fenômeno universal influenciado pela linguagem (Fletcher & Hayes, 2005; Hayes, 2002; Bowen et al., 2021). Nessa direção, Hayes et al. (2021) interpretam narrativas culturais, como a de Adão e Eva (ver citação abaixo), como metáforas da emergência da linguagem e da autoconsciência, associadas ao surgimento do sofrimento humano.

Segundo a tradição religiosa, o sofrimento tem início quando Adão e Eva desobedecem à ordem divina de não comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal — metáfora que pode ser relacionada aos processos de julgamento e avaliação propiciados pela linguagem simbólica. Ao desobedecer, eles adquirem o conhecimento e a consciência de sua própria nudez, o que pode ser interpretado como o despertar da autoconsciência e, por extensão, da linguagem. Assim, o sofrimento humano, representado pela expulsão do paraíso, estaria intrinsecamente ligado à aquisição da linguagem (Balog, 2025, p. 68).

Balog (2025) também recorre à tradição budista, citando Dzigar Kongtrul, que aponta o apego ao ego como raiz do sofrimento. A distinção entre eu-como-contexto (eu-observador) e eu-como-conteúdo (ego) aproxima-se de concepções espirituais que valorizam a dissolução do ego como caminho para uma consciência mais ampla (Kongtrul & Berliner, 2006).

O desenvolvimento do eu-como-contexto pode ser treinado por meio de práticas da ACT e de mindfulness, que enfraquecem o controle por regras e promovem uma relação mais ampla com a própria experiência (Atkins, 2014). Exercícios como “folhas sobre o rio”, “eu observador” e a metáfora do “cabo de guerra” exemplificam estratégias utilizadas nesse processo (Balog, 2025).

Essas práticas favorecem a observação dos eventos internos sem a identificação com eles, permitindo a desconstrução de narrativas rígidas e a emergência de um senso de self mais estável e abrangente. Como resultado, pode surgir uma sensação de conexão com algo maior que o eu individual, ou seja, a própria noção de self transcendental, associada a maior compaixão, aceitação e bem-estar, contribuindo para uma vida mais significativa e harmoniosa.

Por fim, Balog (2025) defende que, quando entendido como uma experiência não verbal, mas derivada de uma série de aprendizados de relações arbitrárias, o eu-como-contexto pode corresponder ao sentimento oceânico, sem limites, que possivelmente é a experiência comum descrita em muitas tradições religiosas. Portanto, um conceito que dialoga com a espiritualidade, proporcionando tanto uma estrutura teórica (RFT) quanto prática (Mindfulness e treinos de perspectivas) para a compreensão e vivência de experiências transcendentais.

A autora conclui que o estudo do eu-como-contexto e sua relação com a autoconsciência, o comportamento simbólico e a espiritualidade contribui para o avanço de intervenções terapêuticas que visam promover bem-estar integral de indivíduos. Importante destacar, a título de conclusão, que a espiritualidade é compreendida como fenômeno complexo e multifacetado, que abrange uma diversidade de vertentes, práticas e estágios experienciais, os quais podem ser analisados sob a perspectiva da Análise do Comportamento e da RFT.


Nota do autor: 

Muito grato pela revisão atenciosa e os comentários pertinentes de Camila Abigail Ocariz e Taísa Scarpin Guazi.


Um resumo de:

Balog LGC. (2025) Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento. Revista Perspectivas em análise do comportamento, vol.16, nº01, pp. 62-71.


Referências

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