quinta-feira, 21 de maio de 2026

[Resenha] Muito Além da Glicemia: O Poder da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) para pessoas com Diabetes

 

Escrito por Paula Helena Gomes de Moraes Ruiz


A diabetes mellitus tipo 2 é uma disfunção metabólica grave, de evolução lenta e progressiva, que representa cerca de 90% de todos os casos de diabetes (International Diabetes Federation [IDF], 2025). Muito além dos desafios fisiológicos, conviver com a doença exige uma adaptação comportamental intensa. A pessoa com diabetes precisa adotar uma nova dieta, monitorar a glicemia, usar medicamentos e lidar com o medo constante de complicações severas, como neuropatias e doenças cardiovasculares, para assim ter o melhor controle da glicemia.

É exatamente nesse cenário de estresse crônico que muitas pessoas desenvolvem esquiva experiencial, uma tentativa de evitar pensamentos e sentimentos desconfortáveis sobre a doença. O resultado? O abandono das rotinas de autocuidado. Para enfrentar essa barreira, a Psicologia tem voltado seus olhos para a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).

A ACT ajuda pessoas com diabetes promovendo mudanças adaptativas de comportamento, mesmo diante de pensamentos, sentimentos ou sensações indesejadas associadas à doença e às restrições contínuas exigidas pelo tratamento (Gregg et al., 2007). A forma como a ACT atua na diabetes pode ser compreendida através dos seguintes mecanismos e resultados:

1. Redução da Esquiva Experiencial: É muito comum que pessoas com diabetes evitem pensamentos perturbadores sobre as complicações da doença ou até mesmo sobre a morte. O medo e a ansiedade (como o medo de ter uma crise de hipoglicemia) podem dominar a vida da pessoa, levando-a a tentar aliviar esse desconforto imediato ao invés de focar em cuidados de longo prazo (Kılıç et al., 2023). A ACT ajuda a reduzir o nível de influência dessa esquiva experiencial, permitindo que a pessoa não fuja de suas emoções, mas aprenda a conviver com elas.

2. Aumento da Aceitação: A terapia foca no desenvolvimento da flexibilidade psicológica, que é a capacidade de estar aberto e focado no momento presente, agindo de acordo com seus próprios valores e objetivos de vida (Luoma et al., 2022). A aceitação (que faz parte da flexibilidade psicológica), na diabetes significa lidar com a realidade da condição de forma aberta e sem julgamentos, abandonando a luta constante contra a frustração e as limitações físicas. Ao aceitar o desconforto (como a dor da agulha de insulina ou a frustração de restrições alimentares), o paciente consegue adotar uma abordagem mais flexível para lidar com os desafios diários.

3. Foco na Ação Comprometida baseada em Valores: A ACT ajuda os pacientes a explorarem os seus valores pessoais relacionados à saúde. Através da ação comprometida, a terapia orienta o paciente a tomar atitudes consistentes com o que realmente lhe importa, mesmo que isso signifique entrar em contato com experiências difíceis (Luoma et al., 2022). A pessoa deixa de focar no alívio imediato (como comer um doce para aliviar a ansiedade) e passa a focar nas suas metas de saúde em longo prazo.

Mas até que ponto a ACT é realmente eficaz para esses pacientes? E como ela se comporta quando aplicada à realidade sociodemográfica brasileira? Analisando as evidências científicas recentes, podemos extrair questões importantes para a prática clínica e para a pesquisa.

Quando olhamos para dois artigos que retratam essa temática (de Moraes Ruiz et al., 2025; Ruiz et al., 2025), encontramos resultados bastante animadores. Uma revisão sistemática recente analisou intervenções baseadas em ACT para adultos com diabetes tipo 2 e encontrou um impacto positivo e sustentado (de Moraes Ruiz et al., 2025).

Os dados da revisão sistemática (de Moraes Ruiz et al., 2025) mostraram que intervenções em grupo focadas na ACT, muitas vezes integradas a componentes educativos sobre a doença, foram mais eficazes do que os tratamentos convencionais. É importante esclarecer que o "tratamento convencional" ou "tratamento usual", no contexto dessas pesquisas científicas, refere-se ao cuidado médico padrão. Trata-se daquele acompanhamento que o paciente já recebe rotineiramente nos postos de saúde ou hospitais, como a medição de glicemia, a entrega de cartilhas e as consultas médicas básicas, mas sem a inclusão de uma intervenção psicoterapêutica especializada para lidar com o peso emocional da doença. Ao comparar as abordagens, a ACT demonstrou superioridade em diversos aspectos:

a) Aumento significativo do autocuidado: Os pacientes demonstraram maior adesão a comportamentos essenciais para o manejo da diabetes.

b) Melhora no controle glicêmico: Houve redução nos níveis de hemoglobina glicada (HbA1c).

c) Ganhos psicossociais: Melhorias expressivas na qualidade de vida e na adesão ao tratamento, resultados que se mantiveram em avaliações de seguimento (follow-up) meses após a intervenção.

d) Vantagem comparativa frente à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Os estudos não apenas compararam a ACT com a ausência de terapia, mas também a colocaram à prova contra outras abordagens psicológicas, como a TCC. Os resultados revelaram que a ACT se mostrou ainda mais eficaz, com um tamanho de efeito de forte a moderado, na promoção do autocuidado em comparação à TCC. Isso sugere que, para o paciente diabético, focar no desenvolvimento da flexibilidade psicológica constitui um mecanismo de promoção mais poderoso para a mudança de hábitos diários do que outras estratégias convencionais de modificação de pensamento.

Se a ACT é tão promissora na teoria e em estudos internacionais (Sakamoto et al., 2021; Wang et al., 2024), o que acontece quando a aplicamos em populações específicas, com realidades socioeconômicas desafiadoras?

Um estudo de campo conduzido no Brasil trouxe reflexões fundamentais sobre essa questão (Ruiz et al., 2025). Ao investigar a relação entre a aceitação da diabetes e o autocuidado em 68 adultos brasileiros com diabetes tipo 2 atendidos no SUS, os pesquisadores encontraram um cenário mais complexo.

Diferente do esperado, não foi encontrada uma correlação estatisticamente significativa direta entre a aceitação da diabetes e os níveis de autocuidado na amostra geral. Isso significa, necessariamente, que a intervenção foi ineficaz? Não. Significa que precisamos refinar nosso olhar clínico.

Os pesquisadores identificaram que variáveis sociodemográficas exerciam um peso substancial nos resultados. A amostra era predominantemente composta por idosos (média de idade acima de 61 anos) e pessoas com baixo nível de escolaridade. Quando os dados foram ajustados, revelou-se que a idade influenciou diretamente a relação entre a aceitação e o autocuidado.

Pessoas em idade avançada e com recursos educacionais limitados tendem a enfrentar barreiras cognitivas e funcionais mais rígidas para compreender e aplicar as demandas complexas do manejo da diabetes (Ruiz et al., 2025). Nesses casos, o conceito de "aceitação" pode esbarrar em dificuldades concretas de letramento em saúde.

A ACT representa uma quebra de paradigma no tratamento da diabetes tipo 2. Ela nos ensina que, para controlar a glicemia, o paciente não precisa travar uma guerra contra os próprios sentimentos e pensamentos.

Contudo, a ciência exige rigor e contexto. Para que o potencial clínico da ACT seja plenamente alcançado no Brasil, pesquisadores e terapeutas precisam continuar desenvolvendo ferramentas de avaliação adaptadas à nossa cultura e criar protocolos de intervenção sensíveis à idade e à realidade educacional dos nossos pacientes. Só assim garantiremos que o poder da flexibilidade psicológica chegue, de fato, a quem mais precisa.

 

Resenha dos artigos:

de Moraes Ruiz, P. H. G., de Abreu Junior, D. D. C., & de Fátima Kirchner, L. (2025). Terapia de Aceitação e Compromisso para pessoas com diabetes tipo 2: uma revisão sistemática. Perspectivas em Análise do Comportamento, xx-xx.

Ruiz, P. H. G. D. M., Kirchner, L. D. F., Canavarros de-Abreu-Júnior, D. D., Seidl, E. M. F., Borges, L. M., Mendes-Chiloff, C. L., ... & Melo, C. D. F. (2025). Relationship between acceptance and self-care in type 2 diabetes. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 21.

 

 Referências

 

Gregg, J. A., Callaghan, G. M., Hayes, S. C., & Glenn-Lawson, J. L. (2007). Improving diabetes self-management through acceptance, mindfulness, and values: a randomized controlled trial. Journal of consulting and clinical psychology, 75(2), 336.

International Diabetes Federation (2025). IDF Diabetes Atlas 11th Edition, 11ª ed. p. 131

Kılıç, A., Hudson, J., Scott, W., McCracken, L. M., Hackett, R. A., & Hughes, L. D. (2023). An online acceptance, commitment, and self-compassion based treatment to decrease psychological distress in people with type 2 diabetes: A feasibility randomised-controlled trial. Internet Interventions. https://doi.org/10.1016/J.INVENT.2023.100658

Luoma, J. B., Hayes, S. C. & Walser, R. D. (2022). Aprendendo ACT: manual de habilidades da terapia de aceitação e compromisso para terapeutas. 2 ed. Novo Hamburgo: Sinopsys Editora.

Sakamoto, R., Yoichi Ohtake, Ohtake, Y., Yuki Kataoka, Kataoka, Y., Yoshinobu Matsuda, Matsuda, Y., Takehisa Hata, Hata, T., Jun Otonari, Otonari, J., Akira Yamane, Akira Yamane, Hiromichi Matsuoka, Matsuoka, H., Kazuhiro Yoshiuchi, & Yoshiuchi, K. (2021). Efficacy of acceptance and commitment therapy for people with type 2 diabetes: Systematic review and meta-analysis. Journal of Diabetes Investigation. https://doi.org/10.1111/jdi.13658

Wang, M., Liu, Q., Zhu, Z., Guo, X., Hu, X., & Cheng, L. (2024). Effectiveness of acceptance and commitment therapy in people with type 2 diabetes mellitus: A systematic review and meta‐analysis. Worldviews on Evidence-Based Nursing, 21(4), 454–466. https://doi.org/10.1111/wvn.12719


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