Escrito por Paula Helena Gomes de Moraes Ruiz
A diabetes mellitus tipo 2 é uma
disfunção metabólica grave, de evolução lenta e progressiva, que representa
cerca de 90% de todos os casos de diabetes (International Diabetes
Federation [IDF], 2025). Muito além dos desafios fisiológicos, conviver com
a doença exige uma adaptação comportamental intensa. A pessoa com diabetes
precisa adotar uma nova dieta, monitorar a glicemia, usar medicamentos e lidar
com o medo constante de complicações severas, como neuropatias e doenças
cardiovasculares, para assim ter o melhor controle da glicemia.
É exatamente nesse cenário de
estresse crônico que muitas pessoas desenvolvem esquiva experiencial, uma
tentativa de evitar pensamentos e sentimentos desconfortáveis sobre a doença. O
resultado? O abandono das rotinas de autocuidado. Para enfrentar essa barreira,
a Psicologia tem voltado seus olhos para a Terapia de Aceitação e Compromisso
(ACT).
A ACT ajuda pessoas com diabetes
promovendo mudanças adaptativas de comportamento, mesmo diante de pensamentos,
sentimentos ou sensações indesejadas associadas à doença e às restrições
contínuas exigidas pelo tratamento (Gregg et al., 2007). A forma como a ACT
atua na diabetes pode ser compreendida através dos seguintes mecanismos e
resultados:
1. Redução da Esquiva Experiencial: É muito comum que
pessoas com diabetes evitem pensamentos perturbadores sobre as complicações da
doença ou até mesmo sobre a morte. O medo e a ansiedade (como o medo de ter uma
crise de hipoglicemia) podem dominar a vida da pessoa, levando-a a tentar
aliviar esse desconforto imediato ao invés de focar em cuidados de longo prazo
(Kılıç et al., 2023). A ACT ajuda a reduzir o nível de influência dessa esquiva
experiencial, permitindo que a pessoa não fuja de suas emoções, mas aprenda a
conviver com elas.
2. Aumento da Aceitação: A terapia foca no desenvolvimento
da flexibilidade psicológica, que é a capacidade de estar aberto e focado no
momento presente, agindo de acordo com seus próprios valores e objetivos de
vida (Luoma et al., 2022). A aceitação (que faz parte da flexibilidade
psicológica), na diabetes significa lidar com a realidade da condição de forma
aberta e sem julgamentos, abandonando a luta constante contra a frustração e as
limitações físicas. Ao aceitar o desconforto (como a dor da agulha de insulina
ou a frustração de restrições alimentares), o paciente consegue adotar uma
abordagem mais flexível para lidar com os desafios diários.
3. Foco na Ação Comprometida baseada em Valores: A ACT ajuda
os pacientes a explorarem os seus valores pessoais relacionados à saúde.
Através da ação comprometida, a terapia orienta o paciente a tomar atitudes
consistentes com o que realmente lhe importa, mesmo que isso signifique entrar
em contato com experiências difíceis (Luoma et al., 2022). A pessoa deixa de
focar no alívio imediato (como comer um doce para aliviar a ansiedade) e passa
a focar nas suas metas de saúde em longo prazo.
Mas até que ponto a ACT é realmente
eficaz para esses pacientes? E como ela se comporta quando aplicada à realidade
sociodemográfica brasileira? Analisando as evidências científicas recentes,
podemos extrair questões importantes para a prática clínica e para a pesquisa.
Quando olhamos para dois artigos que
retratam essa temática (de Moraes Ruiz et al., 2025; Ruiz et al., 2025),
encontramos resultados bastante animadores. Uma revisão sistemática recente
analisou intervenções baseadas em ACT para adultos com diabetes tipo 2 e
encontrou um impacto positivo e sustentado (de Moraes Ruiz et al., 2025).
Os dados da revisão sistemática (de
Moraes Ruiz et al., 2025) mostraram que intervenções em grupo focadas na ACT,
muitas vezes integradas a componentes educativos sobre a doença, foram mais
eficazes do que os tratamentos convencionais. É importante esclarecer que o
"tratamento convencional" ou "tratamento usual", no
contexto dessas pesquisas científicas, refere-se ao cuidado médico padrão.
Trata-se daquele acompanhamento que o paciente já recebe rotineiramente nos
postos de saúde ou hospitais, como a medição de glicemia, a entrega de
cartilhas e as consultas médicas básicas, mas sem a inclusão de uma intervenção
psicoterapêutica especializada para lidar com o peso emocional da doença. Ao
comparar as abordagens, a ACT demonstrou superioridade em diversos aspectos:
a) Aumento significativo do autocuidado: Os pacientes
demonstraram maior adesão a comportamentos essenciais para o manejo da
diabetes.
b) Melhora no controle glicêmico: Houve redução nos níveis
de hemoglobina glicada (HbA1c).
c) Ganhos psicossociais: Melhorias expressivas na qualidade
de vida e na adesão ao tratamento, resultados que se mantiveram em avaliações
de seguimento (follow-up) meses após a intervenção.
d) Vantagem comparativa frente à Terapia
Cognitivo-Comportamental (TCC): Os estudos não apenas compararam a ACT com a
ausência de terapia, mas também a colocaram à prova contra outras abordagens
psicológicas, como a TCC. Os resultados revelaram que a ACT se mostrou ainda
mais eficaz, com um tamanho de efeito de forte a moderado, na promoção do
autocuidado em comparação à TCC. Isso sugere que, para o paciente diabético,
focar no desenvolvimento da flexibilidade psicológica constitui um mecanismo de
promoção mais poderoso para a mudança de hábitos diários do que outras
estratégias convencionais de modificação de pensamento.
Se a ACT é tão promissora na teoria
e em estudos internacionais (Sakamoto et al., 2021; Wang et al., 2024), o que
acontece quando a aplicamos em populações específicas, com realidades
socioeconômicas desafiadoras?
Um estudo de campo conduzido no
Brasil trouxe reflexões fundamentais sobre essa questão (Ruiz et al., 2025). Ao
investigar a relação entre a aceitação da diabetes e o autocuidado em 68
adultos brasileiros com diabetes tipo 2 atendidos no SUS, os pesquisadores
encontraram um cenário mais complexo.
Diferente do esperado, não foi
encontrada uma correlação estatisticamente significativa direta entre a
aceitação da diabetes e os níveis de autocuidado na amostra geral. Isso
significa, necessariamente, que a intervenção foi ineficaz? Não. Significa que precisamos
refinar nosso olhar clínico.
Os pesquisadores identificaram que
variáveis sociodemográficas exerciam um peso substancial nos resultados. A
amostra era predominantemente composta por idosos (média de idade acima de 61
anos) e pessoas com baixo nível de escolaridade. Quando os dados foram
ajustados, revelou-se que a idade influenciou diretamente a relação entre a
aceitação e o autocuidado.
Pessoas em idade avançada e com
recursos educacionais limitados tendem a enfrentar barreiras cognitivas e
funcionais mais rígidas para compreender e aplicar as demandas complexas do
manejo da diabetes (Ruiz et al., 2025). Nesses casos, o conceito de
"aceitação" pode esbarrar em dificuldades concretas de letramento em
saúde.
A ACT representa uma quebra de
paradigma no tratamento da diabetes tipo 2. Ela nos ensina que, para controlar
a glicemia, o paciente não precisa travar uma guerra contra os próprios
sentimentos e pensamentos.
Contudo, a ciência exige rigor e
contexto. Para que o potencial clínico da ACT seja plenamente alcançado no
Brasil, pesquisadores e terapeutas precisam continuar desenvolvendo ferramentas
de avaliação adaptadas à nossa cultura e criar protocolos de intervenção
sensíveis à idade e à realidade educacional dos nossos pacientes. Só assim
garantiremos que o poder da flexibilidade psicológica chegue, de fato, a quem
mais precisa.
Resenha dos artigos:
de
Moraes Ruiz, P. H. G., de Abreu Junior, D. D. C., & de Fátima Kirchner, L.
(2025). Terapia de Aceitação e Compromisso para pessoas com diabetes tipo 2:
uma revisão sistemática. Perspectivas em Análise do Comportamento,
xx-xx.
Ruiz,
P. H. G. D. M., Kirchner, L. D. F., Canavarros de-Abreu-Júnior, D. D., Seidl,
E. M. F., Borges, L. M., Mendes-Chiloff, C. L., ... & Melo, C. D. F.
(2025). Relationship between acceptance and self-care in type 2 diabetes. Revista
Brasileira de Terapias Cognitivas, 21.
Referências
Gregg,
J. A., Callaghan, G. M., Hayes, S. C., & Glenn-Lawson, J. L. (2007).
Improving diabetes self-management through acceptance, mindfulness, and values:
a randomized controlled trial. Journal of consulting and clinical psychology,
75(2), 336.
International Diabetes Federation
(2025). IDF Diabetes Atlas 11th Edition, 11ª ed. p. 131
Kılıç, A., Hudson, J., Scott, W.,
McCracken, L. M., Hackett, R. A., & Hughes, L. D. (2023). An online
acceptance, commitment, and self-compassion based treatment to decrease
psychological distress in people with type 2 diabetes: A feasibility randomised-controlled
trial. Internet Interventions. https://doi.org/10.1016/J.INVENT.2023.100658
Luoma, J. B., Hayes, S. C. &
Walser, R. D. (2022). Aprendendo ACT: manual de habilidades da terapia de
aceitação e compromisso para terapeutas. 2 ed. Novo Hamburgo: Sinopsys
Editora.
Sakamoto, R., Yoichi Ohtake, Ohtake,
Y., Yuki Kataoka, Kataoka, Y., Yoshinobu Matsuda, Matsuda, Y., Takehisa Hata, Hata,
T., Jun Otonari, Otonari, J., Akira Yamane, Akira Yamane, Hiromichi Matsuoka,
Matsuoka, H., Kazuhiro Yoshiuchi, & Yoshiuchi, K. (2021). Efficacy of
acceptance and commitment therapy for people with type 2 diabetes: Systematic
review and meta-analysis. Journal of Diabetes Investigation. https://doi.org/10.1111/jdi.13658
Wang, M., Liu, Q., Zhu, Z., Guo, X.,
Hu, X., & Cheng, L. (2024). Effectiveness of acceptance and commitment
therapy in people with type 2 diabetes mellitus: A systematic review and
meta‐analysis. Worldviews on Evidence-Based Nursing, 21(4),
454–466. https://doi.org/10.1111/wvn.12719
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