segunda-feira, 27 de abril de 2026

[ARTIGO] O que é um organismo?




 

Desde pelo menos 1997 (Roche & Barnes, 1997) o estatuto do conceito de “organismo” no Behaviorismo Skinneriano é questionado. Segundo Roche e Barnes, um exemplo notável de que esse estatuto seria privilegiado é o próprio título de um dos textos fundadores da área, o The Behavior of Organisms (“O Comportamento dos Organismos, ênfase nossa - Skinner, 1938). Esse “dos organismos” seria um especificador e um restritor: os analistas do comportamento estariam interessados no comportamento dos organismos e apenas nele (em oposição ao interesse de outras ciências no comportamento de máquinas, partículas subatômicas, ondas e marés, movimentos planetários etc).

Para Roche e Barnes, no entanto, esse estatuto privilegiado precisaria ser relativizado por, grosso modo, três razões Em linhas gerais, temos (i) o conceito de “organismo”, tanto na Psicologia como na Biologia, não teria um significado específico, e sim vários, sendo um termo em disputa e não um termo técnico (essa tese é exemplificada por Roche e Barnes, referenciando Reber (1995), mas ela também é encontrada em trabalhos relativamente mais recentes como o de Palmer (2004) na Psicologia e o de Clarke (2011) na Biologia); (ii) esse conceito poderia, em alguma medida, ser irrelevante para o Behaviorismo Skinneriano, já que as regularidades encontradas pela Análise do Comportamento diriam respeito às relações entre respostas e mudanças ambientais; como salientam Roche e Barnes, a tríplice contingência, por exemplo, não fala sobre organismos. Retomando o próprio Skinner (1947/1999b): “afortunadamente para a psicologia, tem sido possível lidar com o comportamento sem uma compreensão clara sobre quem ou o que está se comportando, assim como parece ser possível lidar com personalidade sem definir ‘pessoa’”. Por fim, (iii) em decorrência da razão i, falar sobre comportamento fazendo referência a organismos pode produzir “reverberações” teóricas que entram em conflito com teses centrais do Behaviorismo Skinneriano. Essa razão será mais bem discutida a seguir, quando apresentarmos as discussões dos textos resenhados.

Seguindo a trilha aberta por Roche e Barnes (1997), Kelvin Fonseca e Diego Zilio realizaram, em um par de artigos (2018, 2021), um esforço (segundo os próprios autores, não exaustivo) de identificar e organizar os modos como o Behaviorismo Skinneriano utiliza o conceito de “organismo” para contribuir com seu refinamento. Seguindo os objetivos de cada artigo (Fonseca & Zilio, 2018, 2021), vamos apresentar, separadamente, os usos do conceito de “organismo” nos trabalhos de Skinner e na literatura behaviorista para além dele.

O conceito de “organismo” nos textos de Skinner

Conscientes das dificuldades para usar o conceito de “organismo” - especialmente da terceira razão identificada por Roche e Barnes (1997), ou seja, a de que o uso irrefletido do conceito pode implicar em desdobramentos teóricos conflitantes com teses centrais do Behaviorismo Skinneriano - Fonseca e Zilio (2018) procuraram identificar o jeito e os contextos em que o próprio Skinner falou sobre organismos. Eles investigaram, em 8 livros escritos por Skinner (dentre os quais o Cumulative Record (1999a) e o Recent Issues in the Analysis of Behavior (1989), duas coletâneas de artigos), os contextos em que a palavra organismo apareceu (verificando por quais palavras era precedida e seguida e em quais tipos de argumento) e organizaram esses aparecimentos em categorias temáticas. 

Uma das principais observações de Fonseca e Zilio (2018) é a de que, para cada uma dessas categorias, é possível encontrar, nos escritos do próprio Skinner, exemplos explícitos das tensões teóricas produzidas pelo uso do conceito de “organismo”. Como exemplo, vejamos o que os autores perceberam sobre a categoria “concepção morfológica do organismo”. Essa categoria foi nomeada recuperando a ideia de “concepção morfológica” elaborada por Palmer (2004) para descrever teorias psicológicas que têm a pele como critério principal para diferenciar organismo e ambiente: organismo é tudo aquilo que está dentro da pele e ambiente, o que está fora. Uma das tensões teóricas decorrentes de ter a pele como critério demarcatório é o risco de cair em concepções de organismo do tipo caixa-preta, segundo as quais a emissão de uma resposta seria fruto, principalmente, de eventos internos do organismo que, por diversos motivos, não estariam descritos. O que Fonseca e Zilio perceberam é que os escritos de Skinner são - refletindo as próprias tensões teóricas da concepção morfológica de organismo - ambíguos em relação a interpretações do tipo caixa-preta. Em certos momentos, Skinner rejeita explicações internalistas do comportamento (dos quais as interpretações do tipo caixa-preta são um exemplo):

“Para distinguir um operante de um reflexo eliciado, nós dizemos que a resposta operante é ‘emitida’. (Pode ser melhor dizer simplesmente que ela aparece, já que a emissão pode implicar em o comportamento existir dentro do organismo e então sair dele. Mas a palavra não precisa significar ejeção; a luz não está no filamento quente antes de ser emitida.)”. (Skinner, 1974, p.53)

Em outros, ele pressupõe a noção de caixa-preta:

Essa posição é às vezes caracterizada como tratar uma pessoa como uma caixa-preta e ignorar seus conteúdos. . . Mas nada está sendo ignorado. Analistas do comportamento deixam o que está dentro da caixa-preta para aqueles que têm os instrumentos e métodos para estudá-la propriamente. (Skinner, 1989, p. 24)

Se os analistas do comportamento reconhecem que há algo interno ao organismo e que há uma comunidade com ferramentas adequadas para estudar esse algo, então eles reconhecem as explicações do tipo caixa-preta como, em alguma medida, legítimas. Não se trataria, aqui, de afirmar que Skinner adere a algum tipo de explicação “neurocêntrica”, segundo a qual os “componentes principais” da caixa-preta seriam o sistema nervoso. Mas trata-se, isso sim, de reconhecer certa indefinição a respeito de como entender e como falar a respeito desses elementos internos. Por questões de síntese, não vamos descrever as tensões teóricas de todas as categorias; recomendamos, no entanto, a leitura do artigo (Fonseca & Zilio, 2018) original para que fiquem ainda mais claras as ambiguidades que o conceito de “organismo” produziu nas elaborações de Skinner.

O conceito de “organismo” no Behaviorismo para além de Skinner

De forma complementar à Fonseca e Zilio (2018), Fonseca e Zilio (2021) investigaram o uso do conceito de “organismo” no Behaviorismo Skinneriano para além dos textos do próprio Skinner. Eles organizaram a literatura em dois eixos: (a) concepções morfológicas de organismo e (b) concepções transdermais de organismo. Como é possível intuir, a principal diferença entre os dois eixos é adoção (concepção morfológica) ou não (concepção transdermal) da pele como critério necessário para delimitar um organismo.

Fonseca e Zilio identificam os trabalhos de Tonneau (2013a, 2013b, 2013c) como os mais representativos da concepção morfológica. Em Tonneau (2013a), a discussão sobre como delimitar o que é um organismo tem uma função específica: propor critérios para delimitar o que pode ou não ser classificado como comportamento. Segundo ele, Skinner teria proposto a interação com o mundo exterior como uma característica necessária de qualquer comportamento. Essa proposta estaria nos seguintes trechos de Skinner (1938): “é mais direto ao ponto dizer que comportamento é aquela parte do funcionamento de um organismo que está engajada em agir sobre ou ter comércio com o mundo externo” (p. 6) e

“Por comportamento, então, eu entendo simplesmente o movimento de um organismo ou de suas partes em um quadro de referência fornecido pelo próprio organismo ou por vários objetos externos ou campos de força. É conveniente falar sobre ele como a ação do organismo sobre o mundo exterior, e, com frequência, é mais desejável lidar com os efeitos de um movimento do que com ele próprio, como é o caso com a produção de sons.” (p. 6, itálicos adicionados).

Além dessa separação entre interno e externo ser relevante por ser feita no contexto de fundação do Behaviorismo Skinneriano, Tonneau (2013a) também propõe que ela seja levada a sério por, pelo menos, dois motivos. O primeiro é o de que o conceito de organismo entendido como um todo organizado e separado do ambiente externo é herdado da Biologia, reforçando o vínculo da ciência Análise do Comportamento com outra ciência mais antiga e bem estabelecida. O segundo é o de que a pele (ou outras barreiras de organismo, como a membrana de uma célula) tem funções biológicas relevantes (por exemplo, auxiliar na coesão espacial e na proteção do organismo) que barreiras simplesmente geométricas (como a parte externa de um robô) não teriam. De acordo com Fonseca e Zilio (2021), dentre outras dificuldades, a proposta de Tonneau (2013a) correria os mesmos riscos que o uso da concepção morfológica feita por Skinner (descritos na seção anterior), principalmente a de que o sistema nervoso poderia não ser visto só como um “mediador da interação entre organismo e ambiente” (Tonneau, 2013b) e sim como, ele próprio, o agente das ações.

As concepções transdermais são compreendidas por Fonseca e Zilio (2021) como propostas que entendem “organismo” como uma entidade que não é constituída apenas pela parte dentro da pele, mas também por processos que ocorrem além dela. Eles identificam três subgrupos de concepções transdermais: I) organismo como hospedeiro; II) organismo como bioprocesso; III) organismo como fluxo comportamental; as quais serão descritas a seguir..

Organismo como hospedeiro

A noção de organismo como hospedeiro se baseia no trabalho de Baer (1976). Nele, Baer antecipa uma das críticas ao uso do conceito de “organismo” feita por Roche e Barne (1997). Segundo ele, os experimentos comportamentais não lidam com os organismos como tal, mas sim com suas respostas - assim como Roche e Barne afirmam que, por exemplo, a tríplice contingência não faz menção ao organismo. Dessa forma, segundo Baer, seria possível traduzir para termos comportamentais as variáveis organísmicas de interesse. Isso possibilitaria analisar os fenômenos de interesse praticamente sem falar sobre os organismos em si, o que, no entanto, estaria em conflito com a afirmação de que a Análise do Comportamento estuda o comportamento dos organismos. Para resolver essa contradição, Baer descreve o organismo como um hospedeiro das respostas, o lugar onde elas acontecem.

Ao longo da leitura de Baer (1976), fica evidente que as preocupações ontológicas (o que é o organismo?) estão vinculadas a questões éticas (o que um behaviorista não deveria fazer). Nesse caso, o que não se deveria fazer é responsabilizar nem rotular o organismo por suas respostas: “é a essência do desrespeito atribuir ao organismo características de algumas de suas respostas” (Baer, 1976, p. 90). Isso porque ele é apenas seu hospedeiro, não podendo ser reduzido a elas. Apesar da pertinência dessas preocupações éticas, pode-se dizer que a concepção de organismo como hospedeiro está sujeita às mesmas críticas que Fonseca e Zilio (2018) fizeram à categoria de organismo como lócus do comportamento: essa definição não resolve a questão dita ontológica, apenas a transfere (criando mais dúvidas) para outro conceito (o que é um hospedeiro do comportamento?). O que seria esse hospedeiro/lócus? Quais das suas características possibilitam que ele hospede as respostas?

Organismo como bioprocesso

O estudo de Palmer (2004) - a partir do qual desenvolve-se a noção de bioprocesso - consiste em uma crítica do modo como a Psicologia como um todo tenta estabelecer diferenças entre organismo e ambiente. Mais especificamente, para Palmer (2004), toda a Psicologia da época (incluindo o Behaviorismo Skinneriano) adotaria o critério morfológico de demarcação. As dificuldades que Palmer encontra com esse critério não são, no entanto, relacionadas ao possível problema das explicações do tipo caixa-preta ou da atribuição de agência ao cérebro. Para entendê-las, vamos analisá-las a seguir.

A primeira dificuldade apontada por Palmer é, pode-se dizer, estrutural. Retomando Sumner (1922), Palmer argumenta que ninguém teria dúvidas em dizer se um ninho de passarinho faz parte do ambiente ou do organismo. Dúvidas poderiam começar a surgir se falássemos, ao invés disso, da carapaça de um molusco. O cenário seria ainda completamente diferente se falássemos do casco de uma tartaruga. Retomando Bentley (1927), Palmer argumenta que essa distinção entre organismo e ambiente é ainda mais difícil quando precisamos, por exemplo, definir o momento exato em que um nutriente deixa de fazer parte do ambiente e passa a constituir o organismo. Sendo assim, a dificuldade é estrutural, porque um simples critério físico, que faz referência a estrutura externa de um corpo, não seria suficiente para demarcar, de modo definitivo, o que é organismo e o que é ambiente.

A segunda dificuldade descrita por Palmer é a de que o conceito de organismo como utilizado pela Psicologia da época apresentaria uma visão estática do organismo. Nessa visão, o organismo seria como um objeto fixo e acabado que não sofre alterações enquanto interage com o ambiente. Ainda fazendo referência a questões estruturais, um exemplo de contraponto possível a visão estática é a de que o organismo passa por uma série de mudanças estruturais ao longo da vida (em postura, tamanho, células pelas quais é composto etc).

Para contornar ambas as dificuldades, Palmer propõe uma visão dinâmica do que é organismo, ou seja, uma visão que leva em conta a passagem do tempo. Levar em conta essa passagem implica em considerar como centrais as mudanças que acontecem na estrutura do organismo e naquilo que o cerca. Além de o organismo estar sempre em mudança, é extremamente difícil estabelecer o momento específico em que um certo elemento deixa de constituir o ambiente e passa a constituir o organismo. Como um critério morfológico de demarcação pressuporia conceber os limites do organismo como consideravelmente estáveis, ele seria inadequado para apreender o caráter dinâmico salientado por Palmer. Dessa forma, seria mais conveniente para a Psicologia abandonar a distinção organismo-ambiente e adotar como unidade de análise um conjunto de processos biológicos dinâmicos de transformação de elementos dispersos de uma cercania em uma certa unidade coesa (mas maleável). A esse conjunto de processos biológicos Palmer dá o nome de bioprocessos.

Organismo como fluxo comportamental

Os principais propositores da ideia de “fluxo comportamental” são os já citados Roche e Barnes (1997). Conforme descrito acima, Roche e Barnes sugerem a possibilidade de o conceito de “organismo” ser irrelevante para a Análise do Comportamento, já que as regularidades observadas por ela seriam entre respostas e ambiente e não entre organismo e ambiente. Ao contrário de Baer (1976), o qual, diante dessa mesma observação, procura elaborar uma definição de “organismo” que preserve a posição privilegiada do conceito no Behaviorismo, Roche e Barnes propõe o conceito de “fluxo comportamental” como forma de evitar qualquer referência a organismos. Segundo eles, o objeto de estudo da Análise do Comportamento são os fluxos comportamentais, entendidos como sequências contínuas entre respostas e eventos ambientais que, eventualmente, se bifurcam, formando fluxos comportamentais paralelos. Nessa visão, a tríplice contingência seria uma das ferramentas para estudar fluxos comportamentais, dividindo-os, didaticamente, em eventos estanques para melhor analisá-los.

Roche e Barnes afirmam que a referência a organismos no Behaviorismo teria persistido até então, porque o nascimento de um organismo poderia ser uma forma de identificar possíveis bifurcações em fluxos comportamentais. Mas, como as regularidades comportamentais são entre respostas e organismos, a relação entre bifurcação no fluxo comportamental e nascimento de um organismo não seriam necessárias; as bifurcações se deveriam, acima de tudo, a mudanças nas próprias relações de contingência entre respostas específicas e mudanças ambientais.

Convém ressaltar então, que o rótulo “organismo como fluxo comportamental” pode colocar os leitores de Fonseca e Zilio (2021) em uma pista falsa. Não se trata, para Roche e Barnes, de preservar o conceito de “organismo” no Behaviorismo ao entendê-lo com um fluxo comportamental. Trata-se, sim, de abandonar o conceito de organismo, substituindo-o pelo de fluxo comportamental.

Algumas observações

Depois dessa longa exposição, podemos concordar com a tese de Fonseca e Zilio (2018, 2021) de que a multiplicidade de significados do conceito de “organismo” existe em Skinner e persiste em seus sucessores. Além disso, podemos concordar também que essa multiplicidade traz consigo riscos de tensões teóricas entre ideias subjacentes a certas concepções de “organismo” e teses centrais do Behaviorismo Skinneriano. Podemos também concordar com Fonseca e Zilio de que essa multiplicidade de significados não é necessariamente sinônimo de confusão conceitual, mas sim de que diferentes autores têm diferentes compromissos teóricos. Dito de outra forma, a concepção de organismo defendida por cada autor vai depender da forma como cada um se posiciona diante de questões como qual seria o vínculo entre Análise do Comportamento e Biologia, qual a relevância de se separar eventos internos e externos de um organismo e quais compromissos éticos um analista do comportamento, dentre outras.

Cabe, enfim, uma última ressalva importante. A proposta dos trabalhos de Fonseca e Zilio (2018, 2021) foi identificar e organizar os diferentes usos do conceito de “organismo” no Behaviorismo Skinneriano e não necessariamente avaliar a pertinência de cada uso. No entanto, essa discussão seria muito enriquecida caso os diferentes usos de “organismo” fossem avaliados quanto a quais implicações cada uso tem para o conceito de comportamento. Independente (talvez) de ser dos organismos ou não, o objeto de estudo da Análise do Comportamento é, justamente, o comportamento. Identificar a relevância do conceito de organismo e, se relevante, qual concepção adotar são tarefas intermediárias e subordinadas a de entender e definir o que é comportamento.

Convém ressaltar que o conceito de comportamento está, em algum grau, também em disputa dentro do Behaviorismo (e.g. Carrara & Zilio, 2013; Lazzeri, 2013; Tonneau, 2013a, 2013b). Sendo assim, a pertinência de cada concepção de organismo está, principalmente, atrelada a quais consequências ela tem para a concepção de comportamento que venhamos a adotar.

Resenha de:

Fonseca, K., & Zilio, D. (2018). O “organismo” na obra de B. F. Skinner: Uma exploração contextual e quantitativa acerca de seu significado. Perspectivas em Análise do Comportamento, 9(2), 141-163. https://doi.org/10.18761/PAC.2018.n2.01

Fonseca, K., & Zilio, D. (2021). Apontamentos para uma concepção contexto-dependente de “organismo”. Acta Comportamentalia, 29(1).

Referências:

Baer, D. M. (1976). The organism as host. Human Development, 19, 87–98. https://doi.org/10.1159/000271519

Bentley, M. (1927). Environment and context. American Journal of Psychology, 39, 54-61. 

Carrara, K., & Zilio, D. (2013). O comportamento diante do paradigma behaviorista radical. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(1).

Clarke, E. (2011). The problem of biological individuality. Biological Theory, 5(4), 312-325. https://doi.org/10.1162/BIOT_a_00068

Lazzeri, F. (2013). Sobre o conceito de comportamento: alguns breves comentários. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(2).

Palmer, D. K. (2004). On the organism-environment distinction in psychology. Behavior and Philosophy, 317-347.

Reber, A. S. (1995). The Penguin dictionary of psychology. Penguin Press.

Roche, B., & Barnes, D. (1997). The behavior of organisms? The Psychological Record, 47, 597–618. https://doi.org/10.1007/BF03395248

Skinner, B. F. (1938). The behavior of organisms: An experimental analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York: Alfred A. Knopf.

Skinner, B. F. (1989). Recent issues in the analysis of behavior. Columbus: Merril Publishing.

Skinner,B. F. (1999a), Cumulative record: Definitive edition (pp. 316-329). The B. F. Skinner Foundation.

Skinner, B. F. (1999b). Current trends in experimental psychology. In B. F. Skinner, Cumulative record: Definitive edition (pp. 316-329). The B. F. Skinner Foundation. (Obra original publicada em 1947).

Sumner, F. B. (1922). The organism and its environment. The scientific monthly, 14(3), 223-233.

Tonneau, F. J. (2013a). Comportamento e a pele. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(1), 66–73. http://dx.doi.org/10.18542/rebac.v9i1.2132

Tonneau, F. J. (2013b). Comentários sobre o conceito de comportamento. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(2), 122-124. http://dx.doi.org/10.18542/rebac.v9i2.2404

Tonneau, F. J. (2013c). A pele como fronteira: Réplicas aos comentários. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(2), 148-150. http://dx.doi.org/10.18542/rebac.v9i2.2408


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Uma alternativa para reduzir o tempo de scroll e o uso de mídias sociais por meio do manejo de contingências: uma replicação e extensão

Como é de conhecimento comum, os smartphones facilitam que os usuários acessem uma variedade de reforçadores positivos com pouco custo de resposta (O’Donnell & Epstein, 2019). Com isso, é bastante comum passarmos mais tempo nas telas do que gostaríamos, o que geralmente produz uma sensação de perda de controle e, em alguns casos, sentimentos de culpa e arrependimento. Aquela sensação geral de: “entrei para ver uma mensagem e fiquei duas horas seguindo o algoritmo”.

Mas isso não é apenas uma sensação individual: o uso médio diário de mídias sociais tem aumentado, com estimativas globais de aproximadamente 111 para 141 minutos por dia entre 2015 e 2025 (Statista, 2025). Além disso, o uso excessivo de mídias sociais está associado a problemas de internalização (emoções negativas), menor desempenho acadêmico, pior qualidade do sono e diminuição da produtividade (Riehm et al., 2019).

Tendo em conta esse cenário atual, analistas do comportamento têm investigado e desenvolvido intervenções direcionadas à redução do uso de smartphones (Williams-Buttari et al., 2023). 

Olgun et al. (2026) avaliaram os efeitos do manejo de contingências e da seleção de atividades alternativas ao uso de mídias sociais, bem como mensuraram o envolvimento dos participantes nessas atividades alternativas. Este estudo foi uma réplica e extensão da pesquisa de Stinson e Dallery (2023), que avaliou os efeitos de um pacote de intervenção que incluía o manejo de contingências, limites para o uso de aplicativos e seleção de atividades alternativas sobre o tempo de uso de mídias sociais (medido pelo auto relato).

O manejo de contingências, ou contingency management (CM), é uma intervenção fundamentada em princípios comportamentais, na qual reforçadores tangíveis (como cartões-presente, vales, prêmios ou outros itens de valor) são disponibilizados aos clientes de acordo com a comprovação objetiva da emissão de um ou mais comportamentos-alvo previamente definidos (Petry, 2011).

Embora ainda não exista concordância entre os pesquisadores sobre se o uso de mídias sociais, como o tempo gasto em aplicativos de redes sociais no smartphone, deve ser caracterizado como um vício, muitas nomenclaturas têm sido utilizadas para se referir ao uso diário substancial ou excessivo dessas mídias, incluindo vício em mídias sociais (Andreassen et al., 2012; Şahin, 2018).

Nesse contexto, foi possível demonstrar que o uso de smartphones, caracterizado como uma escolha impulsiva - isto é, a seleção de ganhos pequenos e imediatos em vez de ganhos maiores e atrasados, ou a escolha de penalidades grandes e atrasadas em vez de penalidades menores e imediatas (Ho et al., 1999) - pode ser modificado pelo reforço de uma escolha de autocontrole (Hayashi, 2024).. Da mesma forma, intervenções baseadas no gerenciamento de contingências têm produzido reduções na duração do uso de mídias sociais e nas pontuações do Teste de Dependência da Internet (Stinson & Dallery, 2023). Já a pesquisa de Olgun et al. (2026) teve como objetivo não só avaliar os efeitos do gerenciamento de contingências e da seleção de atividades alternativas ao uso de mídias sociais, como também mensurar o envolvimento dos participantes nessas atividades alternativas por meio do aplicativo de tempo de uso.

Todo o estudo foi conduzido de forma remota, o tempo foi monitorado usando o aplicativo tempo de uso do iOS, pois os quatro participantes inscritos usavam dispositivos iOS. Os participantes eram estudantes de graduação e pós-graduação. 

Para a realização da pesquisa primeiramente foi solicitado para os participantes preencherem o Teste de Dependência da Internet, no qual as referências para “internet” foram trocadas por “mídias sociais”. O teste conta com 20 itens e é avaliada em uma escala Likert de 5 pontos (1 = nunca a 5 = sempre), resultando em uma pontuação geral entre 0 e 100, com o ponto de corte de 31 para identificar participantes que apresentavam pelo menos níveis leves de dependência, representando o limiar no qual o uso de mídias sociais pode começar a produzir prejuízo funcional (Young & De Abreu, 2011).

A principais variáveis dependentes do estudo foi o tempo de uso diário em minutos nas mídias sociais, como também, a duração total (em minutos) por dia dedicada a atividades alternativas com o smartphone. As atividades alternativas incluíam o uso de aplicativos que não sejam de mídias sociais como:  aplicativos de música, podcast, meditação, educação (duolingo), exercício físico, jornais, jogos (puzzle). Cada participante podia escolher três atividades alternativas, com a condição de ser objetivamente mensuradas pelo smartphone do participante e de ser aplicativos que já constavam no smartphone. 

Como pré-linha de base, os participantes precisaram mandar vídeos dos dados coletados do tempo de uso de 7 dias anteriores à intervenção. Já na linha de base, os participantes ganharam US$1 por dia pelo envio de seus vídeos, essa fase teve uma duração de 7 dias. 

Antes de iniciar a intervenção, os participantes escolheram as metas diárias individuais de tempo de uso das mídias sociais, que foram estabelecidas junto com os pesquisadores antes do início da intervenção.  Com o objetivo de auxiliar na decisão, os pesquisadores forneceram aos participantes sua média diária durante a fase de linha de base, junto com informações sobre os efeitos negativos do uso, com base na literatura relevante.

Durante a intervenção, os participantes precisavam mandar um vídeo que mostrasse todos os dados coletados pelo rastreador de tempo de uso de tela em seu smartphone no dia anterior. No primeiro dia da fase de intervenção de gerenciamento de contingências, os participantes ganharam US$7 se atingissem sua meta diária de uso de mídias sociais. Os ganhos poderiam aumentar US$1 por dia para cada dia consecutivo em que o participante atingisse sua meta, até um máximo de US$9 por dia. Porém, se um participante não atingisse sua meta ou não enviasse seus dados em um dia de intervenção, o esquema de aumento era reiniciado. Assim como na linha de base, eles recebiam US$1 por mandar um vídeo.

Além disso, os participantes recebiam diariamente mensagens sobre seus ganhos e saldo, com um feedback (“Parabéns, você atingiu sua meta diária!” ou “Infelizmente, você não atingiu sua meta diária.”). Caso não fosse possível atingir a meta diária, o pesquisador e o participante discutiam brevemente possíveis estratégias para promover o engajamento em atividades alternativas. 

Já nos resultados, os pesquisadores relataram que todos os participantes diminuíram o tempo diário gasto em mídias sociais durante a fase de gerenciamento de contingências, mantendo-o igual ou abaixo da meta diária estabelecida para cada um. Além disso, para três dos quatro participantes, as pontuações no teste de dependência da internet foram menores após a intervenção. Mas, segundo os autores, não houve influência discernível sobre o engajamento em atividades alternativas durante a fase de intervenção. Os participantes apresentaram baixos níveis de engajamento diário nessas atividades, sem mudanças notáveis da linha de base para a intervenção. Uma das participantes relatou que preferiu passar mais tempo offline, compartilhando momentos com a família, trabalhando ou saindo.

Assim, os autores discutem que a ausência de mudanças no tempo de engajamento em atividades alternativas, tanto no estudo deles quanto no de Stinson e Dallery (2023), sugere que o uso de manejo de contingências para reduzir o tempo de uso de mídias sociais provavelmente não produz, por si só, mudanças concomitantes no engajamento nessas atividades. Portanto, o reforço programado para o envolvimento em atividades alternativas pode ser necessário para promover mudanças nesses comportamentos.

No entanto, os autores questionam a relevância dessa estratégia, uma vez que o envolvimento em atividades offline pode ser ainda mais benéfico para a saúde, levantando a dúvida sobre sua real necessidade. Uma limitação das atividades offline é que elas não podem ser facilmente mensuradas por meio do smartphone, o que dificulta seu monitoramento.

Outro ponto a ser destacado é que os autores não avaliaram a manutenção dos efeitos da intervenção, o que levanta a hipótese de que esses efeitos podem não se sustentar após a descontinuação dos incentivos financeiros. Isso indica a necessidade de mais pesquisas que investiguem a manutenção desses efeitos, uma vez que uma crítica frequente ao manejo de contingências é que os efeitos da intervenção podem não se manter após a retirada dos incentivos financeiros. Por outro lado, o afastamento das mídias sociais em função dos incentivos financeiros pode favorecer o contato com contingências naturais de reforçamento, ao reduzir o tempo de uso do celular e permitir que essas contingências passem a exercer maior controle sobre o comportamento.

Pesquisas nessa linha têm o potencial de contribuir para um dos problemas e desafios mais importantes dos últimos tempos. 

Resenha do artigo: Olgun, D., Deshais, M. A., Kahng, S., & LaRue, R. H. (2026). Reducing social media use via contingency management: A replication and extension. Journal of Applied Behavior Analysis, 59(2), e70061. https://doi.org/10.1002/jaba.70061

Nota: Agradeço a revisão cuidadosa, bem como as contribuições sumamente valiosas de Diogo Cavalcanti e Eduardo Vilela

Referências

  • Andreassen, C. S., Torsheim, T., Brunborg, G. S., & Pallesen, S. (2012). Development of a Facebook addiction scale. Psychological Reports, 110(2), 501–517. https://doi.org/10.2466/02.09.18.PR0.110.2.501-517 

  • Hayashi, Y. (2024). Problematic mobile phone use as impulsive choice: Development and empirical verification of a reinforcer-pathology model. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 121(2),189–200. https://doi.org/10.1002/jeab.900 

  • Ho MY, Mobini S, Chiang TJ, Bradshaw CM, Szabadi E. Theory and method in the quantitative analysis of "impulsive choice" behaviour: implications for psychopharmacology. Psychopharmacology (Berl). 1999 Oct;146(4):362-72. https://doi.org/10.1007/pl00005482 

  • O’Donnell, S., & Epstein, L. H. (2019). Smartphones are more reinforcing than food for students. Addictive Behaviors, 90, 124–133. https://doi.org/10.1016/j.addbeh.2018.10.018 

  • Petry NM. Contingency management: what it is and why psychiatrists should want to use it. Psychiatrist. 2011 May;35(5):161-163.: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22558006/ 

  • Şahin, C. (2018). Social Media Addiction Scale–Student form: The reliabilit and validity study. TOJET: The Turkish Online Journal of Educational Technology, 17(1), 169–182.

  • Statista. (2025). Average daily time spent on social media worldwide from 2012 to 2025. Statista. https://www.statista.com/statistics/433871/daily-social-media-usage-worldwid 

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quarta-feira, 8 de abril de 2026

[Conceitos Básicos] O tempo como estímulo em Análise Experimental do Comportamento

Escrito por Eduardo Cunha Vilela

O tempo é uma propriedade fundamental do ambiente em que ocorrem os comportamentos dos organismos (Catania, 1991), e animais e humanos demonstram sensibilidade à sua passagem (e.g., Ferster & Skinner, 1957; Richelle & Lejeune, 1980). Por essa razão, o tempo tem sido um foco de investigação no estudo do comportamento operante desde os primeiros trabalhos de Skinner (1938).

Nos primórdios de seus estudos do comportamento operante, Skinner (1938) entendia que o tempo não possuía as dimensões próprias de um estímulo, sendo constituído por uma única propriedade unidimensional, a duração. Com o avanço das investigações, especialmente a partir da análise de padrões de resposta sob contingências temporais, o tempo passa a ser compreendido a partir de suas funções discriminativas. Skinner (1958) descreve que aspectos do comportamento ao longo do intervalo até o reforço passam a integrar o ambiente estimulador e a exercer controle sobre respostas subsequentes. Catania (1991) formaliza essa análise ao indicar que, em esquemas baseados em tempo (e.g., Intervalo fixo ou variável, DRL ou DRH) a especificação do estímulo discriminativo inclui a duração em função de sua correlação com a obtenção de reforço.

Evidências experimentais sustentam essa formulação ao demonstrar que o comportamento é sistematicamente modulado por parâmetros temporais inseridos em esquemas de reforçamento. Em diferentes arranjos, incluindo esquemas de intervalo fixo e variável, organismos apresentam sensibilidade consistente com regularidades temporais, expressa em padrões organizados de resposta ao longo do tempo (Appel & Hiss, 1962; Ferster & Skinner, 1957; Richelle & Lejeune, 1980; Staddon & Simmelhag, 1971). Esses resultados fortalecem a perspectiva de que intervalos temporais podem adquirir função discriminativa no contexto de contingências operantes, em função de sua correlação com a disponibilidade de reforço (Catania, 1977; Rescorla & Skucy, 1969).

Embora os resultados experimentais suportem as funções discriminativas do tempo, Catania (1970, 1991) destaca que durações apresentam idiossincrasias quando comparadas a outras categorias de estímulos. Estímulos temporais diferem de outras categorias de estímulo em aspectos relevantes: durações não contam com receptores sensoriais dedicados, ocorrem de forma irreversível e não podem ser manipuladas de modo descontínuo, de modo que um organismo não pode experienciar 12 s sem antes passar por 11 s (Catania, 1991). Nessas condições, estímulos temporais só podem ser apreendidos retrospectivamente, após o transcurso do intervalo. A discriminação temporal, portanto, não depende de um canal sensorial direto, mas da relação funcional entre a duração do estímulo e as contingências de reforçamento.

Os padrões de responder em esquemas baseados em parâmetros temporais é, tradicionalmente, a principal forma de se estudar propriedades discriminativas do tempo para os organismos (e.g., Catania & Reynolds, 1968; Ferster & Skinner, 1957; Guilhardi & Church, 2005; Machado & Cevik, 1998). Todavia, Catania (1970) sugere que a característica definitiva de uma discriminação temporal é a probabilidade de emissão de uma resposta ser maior após a duração de um dado estímulo do que após a duração de outro estímulo em virtude da correlação entre o reforçador e a duração. Pois, dessa forma, a medida da discriminação temporal não precisará ser, ela própria, uma medida temporal, como obtida nos estudos de esquemas de reforçamento.

Esse tipo de procedimento tem sido amplamente utilizado para investigar discriminação temporal em diferentes contextos, seja a partir da duração de estímulos visuais (e.g., Huziwara et al., 2013; Reynolds & Catania, 1962), auditivos (e.g., Catania, 1970; Cippola, Domeniconi & Machado, 2014) ou do intervalo entre eventos (e.g., Miki & Santi, 2005; Rammsayer & Lima, 1991). Um exemplo é o estudo de Huziwara et al. (2013), que utilizaram um procedimento de matching-to-sample com pombos, no qual diferentes durações de estímulos visuais serviam como base para a escolha entre cores. Após o treino, os animais passaram a responder em função das relações estabelecidas, e o desempenho variou sistematicamente conforme a duração dos estímulos modelo. Esse padrão indica que a duração passou a exercer controle sobre o comportamento, o que está de acordo com outros achados sobre discriminação temporal (Huziwara et al., 2013; Church, 2002; Machado & Keen, 1999).

Resultados positivos de discriminação temporal também foram obtidos com participantes humanos, tanto em tarefas menos complexas de discriminação simples de diferentes durações (e.g., Abel, 1972a, 1972b; Rammsayer & Lima, 1991) quanto em procedimentos de discriminação condicional (e.g., Cippola, Domeniconi & Machado, 2014). No estudo de Rammsayer e Lima (1991), por exemplo, participantes foram expostos a tarefas nas quais deveriam identificar qual de dois estímulos havia durado mais, em condições com intervalos preenchidos, nos quais um estímulo permanece presente durante todo o intervalo, e intervalos vazios, marcados apenas por sinais de início e fim. Os resultados mostraram maior precisão na discriminação de intervalos preenchidos, com diferenças detectáveis menores, enquanto intervalos vazios exigiram diferenças mais amplas para serem discriminados. Ainda assim, os participantes foram capazes de responder diferencialmente em ambas as condições, indicando que a discriminação temporal pode ocorrer mesmo na ausência de um estímulo contínuo ao longo do intervalo, em linha com achados anteriores sobre discriminação de durações entre eventos (Abel, 1972a, 1972b).

Um interessante resultado na investigação de durações como estímulos em discriminações temporais foi obtido por Cippola et al. (2014), que investigaram o uso de durações como estímulos modelo no ensino de discriminações condicionais, avaliando se respostas por exclusão poderiam emergir a partir de variações unidimensionais no tempo. Foram utilizadas tonalidades sonoras de diferentes durações associadas a estímulos visuais definidos, enquanto estímulos indefinidos eram introduzidos em testes em extinção. Os resultados mostraram que a escolha por estímulos indefinidos variou sistematicamente em função da distância entre as durações apresentadas no teste e aquelas previamente treinadas, formando gradientes de generalização. Em geral, menores proporções de escolha ocorreram quando o modelo correspondia à duração associada ao estímulo definido durante o treino, enquanto aumentos graduais foram observados à medida que as durações se afastavam desses valores. Esses efeitos indicam que a duração dos estímulos exerceu controle sobre o comportamento, mesmo em condições que exigiam responder relacional, ainda que com alguma variabilidade entre participantes, possivelmente relacionada à história de treino envolvendo comparações intermediárias.

Os resultados anteriores suportam as propriedades discriminativas das durações apesar de todas as suas especificidades. Um desdobramento esperado, e suportado por Sidman (2000), que entende que a equivalência de estímulos ocorre a partir das contingências de reforçamento, é a de que durações, ao exercerem funções de estímulos discriminativos e podem se tornar partes componentes de classes de equivalência.

Esta hipótese foi investigada no Experimento 1 de Vilela (2025), que avaliou se durações poderiam funcionar como elementos de classes de equivalência em humanos. Participantes foram expostos a um procedimento de matching-to-sample com estrutura one-to-many, no qual dois intervalos temporais serviam como estímulos modelo e figuras visuais abstratas como comparações. Após o treino de múltiplas relações condicionais, a formação de classes foi avaliada por meio de testes de relações emergentes em extinção e por uma tarefa de agrupamento.

Parte dos participantes apresentou desempenho consistente com a formação de classes de equivalência. Em seguida, foi conduzida uma tarefa de estimativa de tempo, na qual os participantes deveriam reproduzir, por meio de uma resposta contínua, as durações associadas a cada estímulo visual. Os resultados indicaram que as estimativas variaram sistematicamente em função da classe à qual os estímulos pertenciam, com diferenças consistentes entre estímulos associados a durações mais curtas e mais longas. Esse padrão sugere que o controle estabelecido pelas durações foi transferido para os demais membros da classe e para novas topografias de resposta, indicando que estímulos temporais podem atuar como elementos de classes de equivalência e transferir suas funções com outros estímulos.

Os resultados apresentados até aqui trazem uma discussão acerca das funções discriminativas das durações tanto como propriedades do ambiente quanto do responder dos organismos e sua relação com o comportamento simbólico. Muito embora o próprio tempo seja alvo de discussões desde os primórdios da Filosofia, e apesar de suas particularidades, os resultados experimentais suportam de forma sólida as funções discriminativas das dimensões temporais dos estímulos.

Nota:

Agradeço pela análise atenta e minuciosa e também as considerações enriquecedoras de Guilherme Paes e Paula Helena Ruiz.

 

Referências:

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Vilela, E. C. (2025). O tempo como componente de classes de estímulos equivalentes [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].


[Resenha] O Voo de Odisseu na Teoria das Molduras Relacionais (RFT): Desafios e Horizontes de um Modelo Hiperdimensional

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