Escrito por Eduardo Cunha Vilela
O tempo é uma propriedade fundamental do ambiente em que ocorrem os comportamentos dos organismos (Catania, 1991), e animais e humanos demonstram sensibilidade à sua passagem (e.g., Ferster & Skinner, 1957; Richelle & Lejeune, 1980). Por essa razão, o tempo tem sido um foco de investigação no estudo do comportamento operante desde os primeiros trabalhos de Skinner (1938).
Nos primórdios de seus estudos do comportamento operante, Skinner (1938) entendia que o tempo não possuía as dimensões próprias de um estímulo, sendo constituído por uma única propriedade unidimensional, a duração. Com o avanço das investigações, especialmente a partir da análise de padrões de resposta sob contingências temporais, o tempo passa a ser compreendido a partir de suas funções discriminativas. Skinner (1958) descreve que aspectos do comportamento ao longo do intervalo até o reforço passam a integrar o ambiente estimulador e a exercer controle sobre respostas subsequentes. Catania (1991) formaliza essa análise ao indicar que, em esquemas baseados em tempo (e.g., Intervalo fixo ou variável, DRL ou DRH) a especificação do estímulo discriminativo inclui a duração em função de sua correlação com a obtenção de reforço.
Evidências experimentais sustentam essa formulação ao demonstrar que o comportamento é sistematicamente modulado por parâmetros temporais inseridos em esquemas de reforçamento. Em diferentes arranjos, incluindo esquemas de intervalo fixo e variável, organismos apresentam sensibilidade consistente com regularidades temporais, expressa em padrões organizados de resposta ao longo do tempo (Appel & Hiss, 1962; Ferster & Skinner, 1957; Richelle & Lejeune, 1980; Staddon & Simmelhag, 1971). Esses resultados fortalecem a perspectiva de que intervalos temporais podem adquirir função discriminativa no contexto de contingências operantes, em função de sua correlação com a disponibilidade de reforço (Catania, 1977; Rescorla & Skucy, 1969).
Embora os resultados experimentais suportem as funções discriminativas do tempo, Catania (1970, 1991) destaca que durações apresentam idiossincrasias quando comparadas a outras categorias de estímulos. Estímulos temporais diferem de outras categorias de estímulo em aspectos relevantes: durações não contam com receptores sensoriais dedicados, ocorrem de forma irreversível e não podem ser manipuladas de modo descontínuo, de modo que um organismo não pode experienciar 12 s sem antes passar por 11 s (Catania, 1991). Nessas condições, estímulos temporais só podem ser apreendidos retrospectivamente, após o transcurso do intervalo. A discriminação temporal, portanto, não depende de um canal sensorial direto, mas da relação funcional entre a duração do estímulo e as contingências de reforçamento.
Os padrões de responder em esquemas baseados em parâmetros temporais é, tradicionalmente, a principal forma de se estudar propriedades discriminativas do tempo para os organismos (e.g., Catania & Reynolds, 1968; Ferster & Skinner, 1957; Guilhardi & Church, 2005; Machado & Cevik, 1998). Todavia, Catania (1970) sugere que a característica definitiva de uma discriminação temporal é a probabilidade de emissão de uma resposta ser maior após a duração de um dado estímulo do que após a duração de outro estímulo em virtude da correlação entre o reforçador e a duração. Pois, dessa forma, a medida da discriminação temporal não precisará ser, ela própria, uma medida temporal, como obtida nos estudos de esquemas de reforçamento.
Esse tipo de procedimento tem sido amplamente utilizado para investigar discriminação temporal em diferentes contextos, seja a partir da duração de estímulos visuais (e.g., Huziwara et al., 2013; Reynolds & Catania, 1962), auditivos (e.g., Catania, 1970; Cippola, Domeniconi & Machado, 2014) ou do intervalo entre eventos (e.g., Miki & Santi, 2005; Rammsayer & Lima, 1991). Um exemplo é o estudo de Huziwara et al. (2013), que utilizaram um procedimento de matching-to-sample com pombos, no qual diferentes durações de estímulos visuais serviam como base para a escolha entre cores. Após o treino, os animais passaram a responder em função das relações estabelecidas, e o desempenho variou sistematicamente conforme a duração dos estímulos modelo. Esse padrão indica que a duração passou a exercer controle sobre o comportamento, o que está de acordo com outros achados sobre discriminação temporal (Huziwara et al., 2013; Church, 2002; Machado & Keen, 1999).
Resultados positivos de discriminação temporal também foram obtidos com participantes humanos, tanto em tarefas menos complexas de discriminação simples de diferentes durações (e.g., Abel, 1972a, 1972b; Rammsayer & Lima, 1991) quanto em procedimentos de discriminação condicional (e.g., Cippola, Domeniconi & Machado, 2014). No estudo de Rammsayer e Lima (1991), por exemplo, participantes foram expostos a tarefas nas quais deveriam identificar qual de dois estímulos havia durado mais, em condições com intervalos preenchidos, nos quais um estímulo permanece presente durante todo o intervalo, e intervalos vazios, marcados apenas por sinais de início e fim. Os resultados mostraram maior precisão na discriminação de intervalos preenchidos, com diferenças detectáveis menores, enquanto intervalos vazios exigiram diferenças mais amplas para serem discriminados. Ainda assim, os participantes foram capazes de responder diferencialmente em ambas as condições, indicando que a discriminação temporal pode ocorrer mesmo na ausência de um estímulo contínuo ao longo do intervalo, em linha com achados anteriores sobre discriminação de durações entre eventos (Abel, 1972a, 1972b).
Um interessante resultado na investigação de durações como estímulos em discriminações temporais foi obtido por Cippola et al. (2014), que investigaram o uso de durações como estímulos modelo no ensino de discriminações condicionais, avaliando se respostas por exclusão poderiam emergir a partir de variações unidimensionais no tempo. Foram utilizadas tonalidades sonoras de diferentes durações associadas a estímulos visuais definidos, enquanto estímulos indefinidos eram introduzidos em testes em extinção. Os resultados mostraram que a escolha por estímulos indefinidos variou sistematicamente em função da distância entre as durações apresentadas no teste e aquelas previamente treinadas, formando gradientes de generalização. Em geral, menores proporções de escolha ocorreram quando o modelo correspondia à duração associada ao estímulo definido durante o treino, enquanto aumentos graduais foram observados à medida que as durações se afastavam desses valores. Esses efeitos indicam que a duração dos estímulos exerceu controle sobre o comportamento, mesmo em condições que exigiam responder relacional, ainda que com alguma variabilidade entre participantes, possivelmente relacionada à história de treino envolvendo comparações intermediárias.
Os resultados anteriores suportam as propriedades discriminativas das durações apesar de todas as suas especificidades. Um desdobramento esperado, e suportado por Sidman (2000), que entende que a equivalência de estímulos ocorre a partir das contingências de reforçamento, é a de que durações, ao exercerem funções de estímulos discriminativos e podem se tornar partes componentes de classes de equivalência.
Esta hipótese foi investigada no Experimento 1 de Vilela (2025), que avaliou se durações poderiam funcionar como elementos de classes de equivalência em humanos. Participantes foram expostos a um procedimento de matching-to-sample com estrutura one-to-many, no qual dois intervalos temporais serviam como estímulos modelo e figuras visuais abstratas como comparações. Após o treino de múltiplas relações condicionais, a formação de classes foi avaliada por meio de testes de relações emergentes em extinção e por uma tarefa de agrupamento.
Parte dos participantes apresentou desempenho consistente com a formação de classes de equivalência. Em seguida, foi conduzida uma tarefa de estimativa de tempo, na qual os participantes deveriam reproduzir, por meio de uma resposta contínua, as durações associadas a cada estímulo visual. Os resultados indicaram que as estimativas variaram sistematicamente em função da classe à qual os estímulos pertenciam, com diferenças consistentes entre estímulos associados a durações mais curtas e mais longas. Esse padrão sugere que o controle estabelecido pelas durações foi transferido para os demais membros da classe e para novas topografias de resposta, indicando que estímulos temporais podem atuar como elementos de classes de equivalência e transferir suas funções com outros estímulos.
Os resultados apresentados até aqui trazem uma discussão acerca das funções discriminativas das durações tanto como propriedades do ambiente quanto do responder dos organismos e sua relação com o comportamento simbólico. Muito embora o próprio tempo seja alvo de discussões desde os primórdios da Filosofia, e apesar de suas particularidades, os resultados experimentais suportam de forma sólida as funções discriminativas das dimensões temporais dos estímulos.
Nota:
Agradeço pela análise atenta e minuciosa e também as considerações enriquecedoras de Guilherme Paes e Paula Helena Ruiz.
Referências:
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Vilela, E. C. (2025). O tempo como componente de classes de estímulos equivalentes [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].
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