quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O comportamento operante pode ser definido como a tríplice contingência?

 

O comportamento operante pode ser definido como a tríplice contingência?

Escrito por Eduardo Cunha Vilela

Algo que sempre me chamou a atenção na Análise do Comportamento é a maneira como se entende a própria definição de “comportamento”. É muito comum vermos, do ponto de vista teórico-conceitual, uma certa redução do conceito de comportamento ao paradigma operante, cuja distinção em relação ao comportamento respondente foi introduzida por Skinner (1938). Além disso, a própria definição de “comportamento” pode ser um tanto conflituosa por si só. Skinner (1953/1965, p. 65) afirmou que “a unidade básica do comportamento operante é a tríplice contingência: a ocasião em que a resposta ocorre, a própria resposta e as consequências reforçadoras. Esses termos não são independentes; é a relação entre eles que é crucial” [1](tradução nossa). Essa dependência relacional entre os estímulos discriminativos (SD), a resposta (R) e as consequências (C) tem levado muitos analistas do comportamento a tomar o próprio “comportamento” como a tríplice contingência (SD–R→C) (e.g., Catania, 1999; Matos, 1999; Moore, 2008; Skinner, 1953). Contudo, se a Análise do Comportamento entende o controle do comportamento em função do ambiente, então, na tríplice contingência, SD e C (ambos componentes ambientais) configuram-se como variáveis independentes. Todavia, se definimos o “comportamento” como a própria tríplice contingência, ele passa a incluir simultaneamente as variáveis independentes e as dependentes, resultando em uma circularidade conceitual. Em termos matemáticos, seria como definir f(x) = f(x) + x.

Essa discussão pode ser melhor compreendida à luz de A evolução do conceito de operante (Todorov, 2002). Nesse artigo, o autor reconstrói como Skinner desenvolveu o conceito de operante ao longo de sua obra. Em The Behavior of Organisms (1938), o operante surge como categoria contrastiva em relação ao respondente: uma resposta emitida, não eliciada por estímulo antecedente específico. Já em Science and Human Behavior (1953), Skinner sistematiza o conceito em termos da tríplice contingência, definindo o operante como uma relação funcional entre ocasião, resposta e consequência. Finalmente, em About Behaviorism (1974), é reforçada a ideia de que o operante não é apenas uma resposta isolada, mas uma classe de respostas definida por suas consequências, deslocando o foco da topografia para a função. Todorov interpreta esse percurso como uma evolução conceitual: de uma categoria contrastiva, passando a uma unidade de análise, até se tornar um instrumento conceitual capaz de organizar o estudo da aprendizagem e do comportamento humano. No entanto, ele destaca que o operante permanece um conceito específico dentro da análise do comportamento, e não sinônimo de comportamento em si. Confundir comportamento e operante, portanto, é extrapolar o alcance de uma ferramenta conceitual e reduzir a diversidade de processos que o termo “comportamento” deve abranger. Essa leitura histórica prepara o terreno para a crítica que o próprio autor desenvolveria em 2012, ao problematizar a definição de comportamento como a tríplice contingência.

É nesse sentido que Todorov discute o conceito de “comportamento” em  “Sobre uma definição de comportamento”, artigo publicado na revista Perspectivas em Análise do Comportamento em 2012, que servirá de base para a reflexão a seguir. Todorov inicia sua análise lembrando que perguntas aparentemente simples, como “o que é comportamento?”, podem exigir respostas complexas. Se a definição deve abranger todos os tipos de comportamento identificados pela ciência, reduzi-lo à fórmula “interação entre organismo e ambiente” mostra-se insuficiente e até tautológico. O próprio exercício de substituição proposto por Todorov evidencia isso: ao trocar a palavra “comportamento” por “interação organismo–ambiente” em enunciados correntes, obtêm-se frases redundantes ou sem sentido. Além disso, nem toda interação entre organismo e ambiente é objeto da Psicologia; alterações fisiológicas, como sudorese ou frequência cardíaca em função de variáveis ambientais, pertencem em grande parte ao escopo da biologia. À psicologia cabe o estudo do comportamento como variável dependente, isto é, o fenômeno a ser explicado em função de relações funcionais com o ambiente. Exemplos como salivar diante do alimento ou correr diante de um perigo ilustram que, embora ambos possam ser descritos como “interações”, tratam-se de processos diferentes (respondentes e operantes) que não podem ser reduzidos a uma definição genérica.

A complexidade das interações possíveis entre organismo e ambiente não pode ser resolvida simplesmente redefinindo comportamento como “a interação entre organismo e ambiente”. Todorov (2012) mostra que essa simplificação se apoia numa tradição que remonta a Skinner (1935) e a Keller e Schoenfeld (1950), para quem estímulo e resposta eram definidos de modo interdependente. Embora isso seja claro no comportamento respondente, que é definido como a correlação entre estímulo e resposta, no comportamento operante a situação é mais complexa.  Nelee, distinguem-se dois aspectos do ambiente: (a) o efeito produzido pela resposta e (b) a consequência que depende desse efeito. Embora todo comportamento envolva interação com o ambiente, não é essa interação em si (como efeitos físicos diretos do comportamento, por exemplo, a poeira que é levantada ao correr; ou o fechar do circuito ao pressionar da barra) que interessa à psicologia, mas a (a) relação dos efeitos das respostas sobre o ambiente com (b) as consequências produzidas. Para Todorov, portanto, comportamento não é coisa, mas processo, com início, meio e fim, sendo compreendido como a variável dependente para a Análise do Comportamento, enquanto as variações no ambiente que afetam a ocorrência das respostas são as variáveis independentes.

É fundamental, porém, na compreensão do comportamento operante, separar o efeito que permitem definir a resposta (ex.: fechamento do circuito provocado pelo pressionar da barra) das consequências produzidas.  A não separação pode levar à confusão de que comportamento é interação entre o organismo e ambiente apenas porque a pressão à barra fechou o circuito e não pelos efeitos efeitos observados na frequência de emissões de respostas de uma mesma classe em decorrência das alterações que estas produzem no ambiente. Embora a conceituação do comportamento operante se construa a partir da identificação de antecedentes, respostas e consequências que compõem a tríplice contingência, Todorov ressalta que esta é apenas um instrumento conceitual, uma unidade de análise que possibilita descrever o operante, mas não se confunde com o próprio comportamento.

Essa linha de argumentação é retomada em Todorov e Henriques (2013), no artigo O que não é e o que pode vir a ser comportamento. Ali, os autores reforçam que comportamento não deve ser confundido com a contingência operante nem reduzido à noção genérica de interação organismo–ambiente e também a importância de se diferenciar entre os efeitos e consequências das respostas. Ademais, para evitar equívocos, destacam a distinção entre resposta e comportamento: resposta é uma instância pontual, enquanto comportamento é uma classe de respostas definida por efeitos recorrentes. Essa formulação aumenta o rigor conceitual da definição, fortalecendo o argumento discutido até aqui.

Em síntese, o percurso histórico-conceitual mostra que, embora a contingência operante tenha se consolidado como unidade central de análise na Análise do Comportamento, não se deve reduzi-la a sinônimo de comportamento. De Skinner a Todorov, passando pela reconstrução histórica de 2002 e pela crítica conceitual de 2012, até a ampliação feita em 2013, a mensagem é clara: comportamento é a variável dependente da psicologia, um processo que se manifesta em múltiplas formas e que precisa ser explicado em função de suas relações funcionais com o ambiente. A tríplice contingência é uma ferramenta analítica poderosa, mas confundi-la com o próprio fenômeno é incorrer em circularidade e perder de vista a complexidade dos processos comportamentais. Manter essa distinção viva é condição para que a Análise do Comportamento preserve sua coerência conceitual.

Nota:

Agradeço pela análise atenta e minuciosa e também as considerações enriquecedoras de Camila Abigail Ocariz Duré e Guilherme Paes.

Referências

Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: Comportamento, linguagem e cognição (D. G. Souza, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Obra original publicada em 1998)

Keller, F. S., & Schoenfeld, W. N. (1950). Principles of psychology: A systematic text in the science of behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Matos,  M.  A.  (1999).  Com  o  que  o  behaviorismo radical trabalha. Em R. A. Banaco (Org.), Sobre Comportamento e Cognição: Vol 1. Aspectos teóricos, metodológicos e de formação em análise do  comportamento  e  terapia  cognitivista  (pp. 45-53). Santo André: ESETec.Moore, J. (2008). Conceptual foundations of radical behaviorism. Cornwall-on-Hudson, NY: Sloan Publishing.

Moore,  J.  (2008). Conceptual  foundations  of  rad-ical behaviorism. Cornwall-on-Hudson: Sloan Publishing.

Skinner, B. F. (1935). The generic nature of the concepts of stimulus and response. The Journal of General Psychology, 12(1), 40–65.  https://doi.org/10.1080/00221309.1935.9920087

Skinner, B. F. (1938). The behavior of organisms: An experimental analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1953/1965). Science and human behavior. New York: Free Press. (Publicado originalmente em 1953)

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York: Knopf.

Todorov, J. C. (2002). A evolução do conceito de operante. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 18(2), 123–127. https://doi.org/10.1590/S0102-37722002000200002

Todorov, J. C. (2012). Sobre uma definição de comportamento. Perspectivas em Análise do Comportamento, 3(1), 32–37.

Todorov, J. C., & Henriques, M. B. (2013). O que não é e o que pode vir a ser comportamento. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 9(1), 75–82. https://doi.org/10.18542/rebac.v9i1.2133


[1] Original: “The basic unit of operant behavior is the three-term contingency: the occasion upon which a response occurs, the response itself, and the reinforcing consequences. These terms are not independent; it is the relation among them that is crucial.” (Skinner, 1953/1965, p. 65)



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